Os inimigos do Líbano

Por João O. Ramos Neto

05 de Ago de 2020

Uma explosão em uma cidade do Oriente Médio sempre chama a atenção das pessoas para a possibilidade de um atentado terrorista. Terça-feira, dia 4 de agosto de 2020, é um dia que ficou marcado por uma gigante explosão em Beirute, capital do Líbano, que causou pânico e destruição na região portuária. O último ataque terrorista lá tinha sido em 19 de novembro de 2013, reivindicado pela Al-Qaeda e contra a embaixada do Irã, com 23 mortos e 150 feridos. O acidente ao qual me refiro acima, que causou milhares de mortos e feridos, não mostrou indícios de ataque terrorista, mas, de uma triste fatalidade. A explosão parece ter sido causada por chamas em um armazém onde material de potencial explosivo confiscado, como Amônia, estava estocado.

Primeiro, é importante lembrar que, de imediato, sabia-se que não se tratava de um ataque terrorista principalmente porque, para sê-lo, algum grupo radical precisa assumir publicamente a sua autoria, o que não aconteceu. Além disso, uma explosão em um armazém portuário não tem, em si, um simbolismo político, como quando ocorre a explosão de uma embaixada. É fato que o Líbano vem passando por uma crise econômica, mas, geralmente, os ataques terroristas no Oriente Médio ocorrem por organizações insatisfeitas com a política adotada pelo seu governo sobre questões internacionais e têm mais motivação religiosa do que econômica. No caso do Líbano, o principal grupo radical é o Hezbollah, que hoje é aliado do presidente e não teria motivo para fazer tal ataque. Por outro lado, é fato que o xiita Hezbollah apóia Bashar Al-Assad na Síria, o que o torna inimigo dos sunitas Al-Qaeda e Estado Islâmico. Porém, o conflito sírio vem perdendo forças nos últimos anos e os grupos inimigos já fizeram acordos de trégua desde 2017.

Na política externa, o principal inimigo do Líbano [árabe e muçulmano] é Israel [hebreu e judeu], cujo primeiro ministro advertiu, uma semana antes, que faria tudo que fosse possível para garantir a defesa do seu país. No último dia 27, Israel informou que impediu um ataque do Hezbollah na fronteira com o Líbano, por causa da região de Monte Dov, que é disputada pelos dois países. Nesse caso, pensou-se que a explosão seria um ataque de Israel como resposta. Porém, após a explosão, Gabi Ashkenazi, ministro das relações exteriores, disse que o seu país não tinha nada a ver com o episódio. De fato, seria um ataque desproporcional, a não ser que fosse para destruir um suposto depósito de armamentos em mãos do Hezbollah.

Diante disso, quando a versão oficial de uma tragédia é de um acidente, é comum surgirem várias teorias conspiratórias na internet, com outras explicações, pressupondo que, possivelmente, a verdade foi ocultada. Porém, neste caso, acredito que será muito difícil encontrar ligações para sustentar tais teorias. Para fazê-lo, seria preciso muito esforço. O Líbano tem muitos inimigos. Mas, dessa vez, as evidências da explosão são mesmo de um trágico acidente. 

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