Duas palavras a respeito da caça às bruxas

Por Philippe Sartin

04 de Dez de 2018

O tema da bruxaria é realmente fascinante e sua difusão impressiona: desde o cânone ocidental (de Homero a Goya) aos produtos mais acessíveis da cultura de entretenimento (livros, jogos, filmes, séries), passando pelas pesquisas de historiadores e antropólogos é quase impossível resistir ao fascínio dos poderes mágicos, das tramas diabólicas, dos exorcismos. Quem, nascido nos últimos 20 anos, nunca ouviu falar de Harry Potter? Qual dentre os leitores, ainda na escola, não ouviu sobre as massacrantes torturas a que a Igreja submetia as bruxas na Idade Média, cujo ápice do terror era a morte lenta e dolorosa na fogueira?

 

Quanto ao último ponto não pode haver dúvida: foram mesmo os medievais a dar início ao que ficou conhecido como a “caça às bruxas”, uma série de episódios cruéis que não pode ser esquecida e que se baseava em métodos violentos e sanguinários de exercer o que então se entendia pela justiça. Durante o papado de João XXII (1316-1334) e, sobretudo a partir da bula Super illius specula (1326), a prática da magia (desde a necromancia erudita até às superstições populares) passou a ser considerada um ato herético em si mesmo e os seus praticantes passaram a incorrer em automática excomunhão. Os inquisidores (normalmente dominicanos nomeados pelo papa) foram autorizados a perseguir os envolvidos em tais atos e, um século mais tarde, no momento em que uma demonologia tomava corpo na Europa ocidental, o mais infame dos primeiros, Heinrich Kramer, escreveu o terrível Malleus Maleficarum, obra de invulgar misoginia e excepcional retórica, destinada a fundamentar tratados posteriores e muitos dos episódios de caça à bruxas (este é assunto para um próximo texto).

 

As imagens da perseguição à bruxaria que assombram o imaginário das pessoas, todavia, devem ser compreendidas, como ensina a História, a partir do exame crítico da documentação. O que as pesquisas dos historiadores tem demonstrado, há já uns trinta anos (não obstante muitos, na academia e fora dela, insistam em visões atrasadas e estereotipadas) é que ainda que se trate de uma série de episódios lastimáveis e capazes de suscitar, a um só tempo, terror e compaixão, possuem a sua especificidade e esta deve ser levada em conta, sob a ameaça de que se mistifique o passado. Gostaria de apontar três direções debatidas nos últimos anos.

 

A primeira é a de que a associação entre Idade Média e caça às bruxas corresponde muito mais a um mito do que a um fato: embora o que foi dito acima permaneça verdadeiro (como o demonstram as pesquisas de Alain Boureau), foi na Época Moderna – sobretudo nos períodos compreendidos entre 1480-1520 e 1580-1630, grosso modo – que a perseguição a determinadas mulheres consideradas bruxas alcançou os mais altos índices de execuções. Igualmente neste período, a partir da tradição inaugurada pelo Malleus, é que os principais tratados de bruxaria seriam escritos, entre os quais os mais famosos foram o De la démonomanie des sorciers (1580) do jurista francês Jean Bodin; o enciclopédico Disquisitionium magicarum libri sex (1599/1600) do jesuíta Martin del Río; e o Tableau de l'inconstance des mauvais anges et démons (1612) de Pierre de Lancre. O assunto, como se vê, está longe de ser medieval.

 

A segunda direção apontada pelas pesquisas mais recentes é a de que existe uma associação bastante distorcida entre a caça às bruxas e a atuação da Inquisição. O que se observa, sobretudo a partir da segunda metade do século XVI, é que nos tribunais espanhóis e italianos uma tendência cética se afirmava a respeito da possibilidade das operações mágicas, ao mesmo tempo em que se tomava consciência do erro que era processar indivíduos, relegando-os eventualmente à justiça secular (leia-se, à pena capital), com base em suposições errôneas e supersticiosas como aquelas do Malleus (o vôo noturno, o sabá, as metamorfoses etc.).

 

Como apontam as pesquisas de John Tedeschi, Giovanni Romeo e Gustav Henningsen, a ênfase dos inquisidores no respeito ao processo penal colocou um freio às execuções por bruxaria, muito mais abundantes em países como Alemanha e França, onde a repressão ficou por conta dos tribunais seculares. Em países como Portugal (onde se localizava o terceiro tribunal inquisitorial moderno), a expressão “caça às bruxas” chega a ser inadequada (como demonstraram as pesquisas de José Pedro Paiva). Não se trata, em absoluto, de relativizar a atuação da Inquisição, bastante incisiva– e, infelizmente, bastante destrutiva – na perseguição a outros indivíduos, como foi o caso dos judeus e muçulmanos (e seus descendentes) suspeitos de tornar à fé antiga após converterem-se ao catolicismo. Apenas de compreender que culpabilizá-la no caso específico da caça às bruxas é de um simplismo atroz.

 

A terceira e última conclusão a respeito da repressão à bruxaria apresenta a falência da ideia segundo a qual esta se teria baseado na crassa ignorância dos “homens do passado” – julgamento vazio de significado, normalmente destinado a enaltecer os “homens do presente” – e de que a sua compreensão passa ao largo de quaisquer justificativas racionais. Como o demonstraram as importantes pesquisas de Stuart Clark, os religiosos e magistrados responsáveis por teorizar o mito da bruxaria (vulgarmente conhecidos como demonólogos) faziam-no circunscritos aos modelos de raciocínio disponíveis no período, em especial o raciocínio baseado em oposições, fundamento da concepção da bruxaria como a deliberada inversão – por parte das bruxas, em conluio com o Diabo – de todas as normas sociais e religiosas. Sem que se atente para a história das ideias, portanto, há de reinar o julgamento apressado e a incompreensão histórica.

 

Muito mais pode ser dito (e o foi, com efeito) a respeito deste tema, como disse, tão fascinante e que desperta as mais diversas emoções. É um assunto, todavia, muito complicado, que exige anos de pesquisa e dedicação, além de um olhar sempre crítico para as diversas armadilhas da interpretação. Como, aliás, qualquer coisa que valha a pena estudar.

 

Para escrever este texto me servi das seguintes leituras:

 

BOUREAU, Alain. Satan hérétique. Histoire de la démonologie (1280-1330). Paris: Odile Jacob, 2004.

 

CLARK, Stuart. Thinking with demons. The idea of witchcraft in Early Modern Europe. Oxford: Oxford University Press, 1997.

 

DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente 1300-1800. Uma cidade sitiada. São Paulo: Compahia de Bolso, 2009.

 

LEVACK, Brian. A caça às bruxas na Europa Moderna. Rio de Janeiro: Campus, 1988.

 

MANDROU, Robert. Magistrados e feiticeiros na França do século XVII. São Paulo: Perspectiva, 1979.

 

PAIVA, José Pedro. Bruxaria e superstição num país sem caça às bruxas. Lisboa: Editorial Notícias, 2002.

 

ROMEO, Giovanni. Inquisitori, esorcisti e streghe nell’Italia della Controrriforma. Firenze: Sansoni Editore, 1990.

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