Questão Palestina: uma história de limpeza étnica

Por Thiago Damasceno

14 de Mai de 2019

"A função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer".

(Peter Burke)

 

Hoje, 14 de maio de 2019, Israel faz 71 anos. Para o senso comum, a criação desse Estado pôs um fim definitivo às constantes perseguições que o povo hebreu, posteriormente, povo judeu, sofreu ao longo da história. Esse pensamento é otimista, mas sabemos que, infelizmente, “as coisas não são bem assim”. Quando estudamos certos temas mais a fundo, descobrimos e entendemos aspectos que até então estavam além das nossas expectativas ou além de modos de pensamentos extremistas: preto ou branco. Nesse sentido, não é nenhum exagero afirmar que a fundação do Estado de Israel tem relações estreitas com uma das grandes crises humanitárias do Oriente Médio, conhecida como Questão Palestina. No dia 14 de maio de 1948, milhares de judeus perseguidos conseguiram uma pátria, mas também milhares de palestinos foram expulsos da sua. Para ser mais objetivo, abordarei momentos contemporâneos dessa história, apresentando dados e conhecimentos a partir da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

 

Durante esse conflito global, o regime nazista alemão, liderado por Adolf Hitler (1889-1945), assassinou sistematicamente, em campos de concentração, cerca de 11 milhões de pessoas. Desse total, havia membros de grupos sociais vistos como marginalizados ou como cidadãos de segunda categoria, como comunistas, ciganos, homossexuais, deficientes físicos e mentais e judeus. As estimativas apontam que, dos 11 milhões de pessoas exterminadas, 1,5 milhão eram crianças e, 6 milhões, judeus, de todas as idades e gêneros. Esse trágico evento ficou conhecido como Holocausto, termo oriundo das palavras gregas holos (todo) e kaustos (queimado). Desde então, o termo faz referência a acontecimentos de extermínios sociais (Cardoso, 2019).

 

Para continuarmos a entender essa história vamos recuar no tempo, para meados do século XIX, pois precisamos compreender o que foi o sionismo.

 

Esse nome vem do termo Sion, nome de uma colina de Jerusalém, cidade localizada na região do Oriente Médio conhecida como Palestina, berço do judaísmo. Apesar disso, é sempre bom lembrar que Jerusalém é considerada cidade santa não só para a religião judaica, mas também para o cristianismo e para o Islã.

Ilustração 1 - Mapa da Região da Palestina

Fonte: CANEPA; OLIC, 2003, p. 85.

Ilustração 2 – Fotografia do Domo da Rocha, local sagrado para o judaísmo, o cristianismo e o Islã

Fonte: CAFÉ TORAH, 2015.

Sionismo é a denominação dada ao movimento nacionalista judaico criado no século XIX, assim como outros nacionalismos europeus. O objetivo do sionismo era a criação de uma pátria para os judeus devido às frequentes perseguições que esse povo sofria, tanto no Ocidente (a exemplo, as perseguições nazistas) quanto no Oriente (os denominados pogrom-s no Império Russo).

 

O movimento sionista contou com a colaboração de diversos intelectuais europeus de origem judia, como o jornalista austríaco Theodor Herzl (1860-1904), que propôs a criação de um Estado nacional judaico na Palestina. Herzl expôs suas ideias no livro O Estado Judeu, lançado em 1895, tornando-se figura de proa do movimento sionista.

 

Como bem aponta a historiadora brasileira Arlene Clemesha (2008), o sionismo é um empreendimento colonizador e excludente, pois na sua essência está a criação de apenas um Estado, Estado esse exclusivamente para judeus na Palestina. Nessa concepção de projeto residem vários problemas do caso que estamos tratando aqui. Com esse modo de pensar o sionismo gerou discursos e imagens falsas sobre a terra da Palestina e sobre o seu povo, como o mito de “uma terra sem povo para um povo sem terra” e a ideia de “transferência voluntária” dos palestinos para outros países árabes na ocasião da fundação de Israel, em maio de 1948. Como dito antes, veremos que “as coisas não são bem assim”.

 

Por volta de 1882, início da imigração massiva de judeus ao território palestino, a Palestina tinha uma população árabe nativa de cerca de 500 mil pessoas. Em 1914, essa população subiu para 700 mil perante uma população judaica de, no máximo, 80 mil habitantes. Em 1947, um ano antes da criação de Israel, a população árabe nativa somava 1,3 milhão diante de 650 mil judeus. Fica então a questão: Como uma minoria judaica conseguiu o controle político em um país povoado por uma maioria árabe, que lhe era antagônica, a ponto de proclamar ao mundo a criação de um Estado? (MORRIS, 2007, p. 39 apud CLEMESHA, 2008, p. 172).

 

Devemos ter em mente que sempre houve comunidades judaicas vivendo na Palestina ao lado do povo árabe-palestino, povo esse, majoritariamente, muçulmano. A maioria do “restante” dos palestinos é cristã. Essas comunidades distintas viviam em paz há décadas, uma prova de que os problemas na região têm fortes raízes na política, não nas religiões. Os conflitos militares e políticos entre esses dois povos, naquela região, foram iniciados e aumentaram à medida que o sionismo se desenvolvia e o número de imigrações de judeus à Palestina crescia. Essas imigrações eram, geralmente, financiadas por ricas famílias ou grupos financeiros judaicos interessados nos lucros provenientes da exploração da terra e da mão-de-obra barata dos judeus imigrantes.

 

A notável ascensão do Partido Nazista na Alemanha, a partir de janeiro de 1930, com a nomeação de Hitler ao cargo de Chanceler (Primeiro-Ministro), também colaborou para o aumento das perseguições aos judeus e, consequentemente, naquele contexto, para o crescimento das imigrações judaicas à Palestina. Os anos antes, durante e após a Segunda Guerra foram marcados por greves e revoltas do povo palestino, bem como por conflitos armados entre os dois povos. São destacáveis, nesse quadro histórico, o surgimento de dois grupos terroristas vinculados ao projeto sionista, como o Irgun (grupo saído do Haganah, milícia sionista) e o Stern (grupo oriundo do Irgun). Ambos os grupos foram fundados por volta de 1938 e, desde então, passaram a atacar tanto alvos palestinos (os movimentados mercados árabes, por exemplo), como britânicos, pois na época o Reino Unido tinha a posse do mandato político sobre a Palestina, de forma que muitos militares e políticos ingleses trabalhavam e residiam na região (Salem, 1986).

 

Atenção! Não se deve cair no erro de confundir sionismo com judaísmo ou com judeus e acabar desaguando no antissemitismo, que é a fobia ou a aversão aos povos considerados semitas, ou seja, os árabes e os judeus. Uma coisa é o judaísmo (cultura e religião), outra coisa é o sionismo (movimento político nacionalista de cunho colonialista e excludente), e outra coisa também é a tradicional linha de governo israelense que, geralmente, tem o sionismo como ideologia e é favorável (ou agente da) à perseguição, tortura e genocídio contra o povo palestino.

 

Mas o caso Israel-Palestina consegue ser ainda mais complexo, principalmente quando se observa as posições dos demais países árabes no decorrer da história, variando e misturando posições políticas de solidariedade aos palestinos com interesses territoriais nacionalistas.

 

Fato é que a opinião pública mundial acerca do Holocausto aos judeus, as constantes e crescentes chegadas de judeus à Palestina e o movimento sionista foram fundamentais para a proclamação e fundação oficial do Estado de Israel em 14 de maio de 1948.

Ilustração 3 – Proclamação da criação do Estado de Israel, na cidade de Tel Aviv

(De pé, no centro, Ben Gurion, líder sionista. No quadro na parede, Theodor Herzl)

Fonte: CONEXÃO ISRAEL, 2013.

Como defendem Beatriz Canepa e Nelson Olic (2003), a criação de Israel, sob o aval da então jovem ONU (Organização das Nações Unidas), foi fruto de um plano de partilha da Palestina que não consultou a população árabe nativa. Sendo assim, no dia seguinte à sua fundação, Israel foi alvo das declarações de guerra de cinco Estados árabes: Egito, Síria, Iraque, Líbano e, como era conhecido na época, Transjordânia (atual Jordânia). Esse conflito passou à história, sob o ponto de vista israelense, como “Guerra de Independência” ou “Primeira Guerra Árabe-Israelense” (1948-1949). A disputa terminou com a vitória militar e política de Israel.

 

Contudo e, obviamente, com outro ponto de vista sobre o acontecimento, os palestinos se referem ao episódio como An-Nakba (A Catástrofe), pois, naquele momento, com o estabelecimento do Estado de Israel e a expulsão violenta e sistemática de milhares de palestinos de suas casas, povoados e cidades, iniciou-se, de fato, a Diáspora Palestina ou, como é mais conhecida, a Questão Palestina. Esse caso ou problema, ainda sem perspectivas de soluções, se caracterizou pela massiva “produção” de mortos e refugiados palestinos.

 

Outra característica do tema é a tradicional recusa de Israel em reconhecer as resoluções votadas na ONU. Dentre elas, principalmente a Resolução de número 194, de dezembro de 1948, que determinava, basicamente, o retorno dos refugiados palestinos aos seus lares. A resposta do governo israelense a isso foi, no decorrer dos anos, a ocupação sistemática, por meio de assentamentos sionistas, nos territórios antes habitados por palestinos.

 

Segundo a historiadora brasileira Helena Salem (1986, p. 30), calculou-se uma média de 900 mil refugiados palestinos na Cisjordânia, Faixa de Gaza, Síria, Líbano, Egito, Iraque e nos países do Golfo no ano de 1950. Conforme o historiador israelense Ilan Pappé (2016, p. 15), de março a agosto de 1948, cerca de 531 vilarejos palestinos foram destruídos e 800 mil palestinos foram expulsos de sua terra natal. Para esse historiador, 1948 foi um ano crucial para a história da Palestina, não só pela fundação de Israel, mas também pelo início das operações de limpeza étnica por parte do poder político-militar sionista contra o povo palestino.

Ilustração 4 – Fotografia de refugiados palestinos em 1948

Fonte: CORREIO DA CIDADANIA, 2018.

Pappé (2016) acredita que tanto a total adoção do ponto de vista israelense quanto do ponto de vista palestino sobre os acontecimentos de 1948 não são adequados para analisar a Questão Palestina de forma aprofundada e coerente. A partir de dados e informações coletadas por meio de história oral (basicamente, entrevistas) e de documentos militares israelenses, esse pesquisador propõe a análise dessa história a partir da noção, ou do paradigma, da limpeza étnica, uma operação, ou planejamento, considerada como crime contra a humanidade pelo Direito Internacional. Mas o que vem a ser, de fato, a limpeza étnica?

 

A limpeza étnica é um “esforço para deixar homogêneo um país de etnias mistas, expulsando e transformando em refugiados um determinado grupo de pessoas, enquanto se destroem os lares dos quais elas foram enxotadas”. (PAPPÉ, 2016, p. 23). Em suma, uma limpeza étnica é uma operação político-militar cujo objetivo principal é “varrer”, tirar, “limpar” determinada etnia (grupo social) de uma certa localidade.

 

Esse empreendimento é projetado pelo poder político e implantado pelo poder militar, sendo caracterizado também pela ocorrência de massacres como forma de acelerar a expulsão de uma etnia ou de etnias de certa região. Logo, uma consequência direta de uma limpeza étnica é refúgio de centenas e até de milhares de pessoas, como foi o caso de 1948.

 

A título de curiosidade, cito um desses casos de massacre e expulsão sistemática planejado e executado pelo poder sionista. O episódio mencionado por Salem (1986) em seu estudo é o caso da aldeia de Deir Yassin. Em 9 de abril de 1948, tropas do Irgun e do Stern invadiram essa aldeia e mataram cerca de 250 pessoas, todos alvos civis. Menahem Begin - que rearticulou o Irgun em 1943 e, anos depois, em 1977, tornou-se primeiro-ministro de Israel – chegou a exibir os corpos das vítimas à imprensa. Para os palestinos, o massacre se tornou um símbolo de terror e de convite à fuga. Esse caso desconstrói totalmente o mito da “transferência voluntária” dos palestinos.

 

Infelizmente, apesar dos apelos e medidas da ONU, das ajudas humanitárias e de boa parte da opinião pública mundial a favor dos palestinos, a Questão Palestina permanece sem vias efetivas de solução. É uma ferida aberta em uma história bastante regada a sangue.

 

"Os principais aspectos da vida palestina continuam sendo a expropriação, o exílio, a dispersão, a privação dos direitos civis (sob a ocupação militar israelense) e, não menos relevante, uma resistência extraordinariamente disseminada e obstinada a essas aflições".

(Edward W. Said)

 

 

Referências

 

CAFÉ TORAH. O Domo da Rocha – Mesquita de Omar, 02 dez. 2015.

Disponível em: https://www.cafetorah.com/o-domo-da-rocha-mesquita-de-ormar/

Acesso em: 13 mai. 2019.

 

CANEPA, Beatriz; OLIC, Nelson Bacic. Oriente Médio e a Questão Palestina. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2003.

 

CARDOSO, Luisa Rita. Holocausto. InfoEscola, 2019.

Disponível em: https://www.infoescola.com/historia/holocausto/

Acesso em: 11 mai. 2019.

 

CLEMESHA, Arlene E. Palestina, 1948-2008: 60 anos de desenraizamento e desapropriação. Tiraz, São Paulo, nº 04, ano 05, 2008, p. 171-185.

Disponível em: https://tinyurl.com/y3muc9o5

Acesso em: 11 mai. 2019.

 

CONEXÃO ISRAEL. O Estado de Israel declara independência, 12 abr. 2013.

Disponível em: https://tinyurl.com/y63ylm5f

Acesso em: 13 mai. 2019.

 

CORREIO DA CIDADANIA. Ato público “70 anos da Nakba palestina”, 11 mai. 2018.

Disponível em: https://tinyurl.com/y2af2vyc

Acesso em: 13 mai. 2019.

 

PAPPÉ, Ilan. A limpeza étnica da Palestina. Tradução: Luiz Gustavo Soares. São Paulo: Sundermann, 2016.

 

SALEM, Helena. O que é Questão Palestina. São Paulo: Brasiliense, 1986.

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