O paradoxo do tempo e a continuidade da espécie – Temporalidades II

Por Hugo David Gonçalves

19 de Nov de 2018

Com o intuito de dar continuidade às reflexões sobre o tempo, iniciadas em outro texto (clique aqui e confira), resolvi me aventurar. O tema é árido e complexo, razão pela qual criamos essa série “Temporalidades”, tendo em vista a necessidade dessa reflexão para a construção do conhecimento histórico. O tema para este texto é o caráter paradoxal (ou seja, carrega em si ideias opostas) da experiência humana no tempo, com ênfase para a busca da eternidade por meio da perpetuação da espécie. Procurei elaborar um breve ensaio sobre a temática explorando suas implicações teóricas para a ciência histórica.

 

O primeiro aspecto a ser abordado relaciona-se à própria percepção do tempo na forma de um paradoxo intenso e perfeitamente estabelecido. Não ser mais e não ser ainda. Ter sido e vir a se tornar. Remorso e esperança. Arrependimento e ansiedade. Gênese e apocalipse. Edifício e ruína. No limite: nascer e morrer. O soneto “Remorso” de Olavo Bilac retrata a vivência dessa experiência:

 

 

Às vezes, uma dor me desespera...

Nestas ânsias e dúvidas em que ando.

Cismo e padeço, neste outono, quando

Calculo o que perdi na primavera.

 

Versos e amores sufoquei calando,

Sem os gozar numa explosão sincera...

Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera

Mais viver, mais penar e amar cantando!

 

Sinto o que desperdicei na juventude;

Choro, neste começo de velhice,

Mártir da hipocrisia ou da virtude,

 

Os beijos que não tive por tolice,

Por timidez o que sofrer não pude,

E por pudor os versos que não disse!

 

 

Tendo produzido sua obra no fim do período imperial e durante a primeira República no Brasil, o autor também era jornalista, cronista e ativista político republicano e nacionalista. O ápice de sua produção intelectual ocorreu durante as primeiras décadas do século XX, momento profundamente emblemático da história nacional. A dissolução de algumas estruturas imperiais e o início de um regime político diferente trouxe aos contemporâneos certas incertezas. O futuro era incerto. O debate político aprofundava essa incerteza na medida em que os grupos mais conservadores, ligados à monarquia, buscavam experiências (sobretudo na América Latina) que sustentassem seus argumentos de que a República levaria o Brasil a uma situação de instabilidade (o assunto foi tratado por autores que produziram obras clássicas como Raymundo Faoro, Emília Viotti e José Murilo de Carvalho).

 

O que os versos de Bilac denunciam, no foro íntimo, é a existência de “cismas” do outono sobre o que teria perdido na primavera. Esse sentimento de perda é típico do paradoxo do viver e do sofrer humano na Terra (como diz José Carlos Reis). Os eventos sobre os quais construímos a História são compostos por gente de carne e osso como nós, que vivem a incerteza do amanhã. Essa incerteza precisa ser considerada pelo historiador, uma vez que pode direcionar as ações daqueles que viveram o período. A fluidez inexorável do tempo: de um passado mais ou menos conhecido a um futuro mais ou menos esperado.

 

Durante nossas pesquisas devemos fazer essa reflexão sobre o tempo tendo em vista seu estatuto ontológico que se constrói pela negação do tempo presente. Existe uma alteridade sobre a qual a ideia do tempo se constrói e ela é relativa a alguma coisa que não ela mesma e que não o nada (Ver José Carlos Reis). Construir uma ideia sobre o tempo é uma forma de o historiador conferir substância àquilo que ele mesmo estabelece, já que é possível construir uma história do tempo concomitante à história que se queira construir.

 

O soneto de Olavo Bilac permite que reflitamos sobre o profundo desgosto que o eu lírico sente, no começo da velhice, sobre o que perdera na juventude. É possível que esse eu poético seja uma metonímia do sentimento de sua geração. A chamada República da Espada, substituída pela chamada República Velha (ou Oligárquica) não trouxe profundas mudanças sociopolíticas à sociedade brasileira. Ocorre que Olavo Bilac não tinha esse dado. Sua relação limitava-se ao presente, lugar da ação, e ao passado, espaço da experiência. O futuro era pura expectativa.

 

Aliás, essas categorias, “espaço de experiência e horizonte de expectativa”, são do autor alemão Reinhart Koselleck e são categorias epistemológicas. Servem para delimitar que o presente (campo da ação) é fugidio na medida em que deixa de existir no instante em que é vivido, ao passo em que o passado é “estável” uma vez que pode ser conhecido e o futuro constitui-se como uma infinidade de possibilidades em relação às quais podemos ter uma ideia, mas não podemos delimitá-las nem tampouco alcançá-las. Existem outras opções epistemológicas como as propostas de Paul Ricoeur sobre a periodização e a busca da causalidade ou a de Norbert Elias sobre a ideia de continuidade partindo-se do que já se conhece.

 

Para além do remorso expresso por Olavo Bilac, os seres humanos se projetam em direção ao futuro com uma ansiedade estrutural: a certeza da finitude. Essa certeza não é epistemológica, mas real. É um ponto perfeitamente visível no horizonte, ainda que não saibamos exatamente a que distância se encontra. Como seres históricos, entretanto, os humanos rompem com essa condição na exata medida em que veem, na prole, a possibilidade da permanência. Não necessariamente com uma prole biológica, mas eminentemente social.

 

A transmissão dos genes é importante, mas a dos saberes pode ser ainda mais importante. Na era da informação, em que praticamente todos os saberes da humanidade se encontram disponíveis a dois ou três toques no mouse, essa perspectiva se mostra cada vez mais garantida a nível global. Por outro lado, no âmbito privado ou particular há certa dificuldade em se perceber nessa continuidade. José Ortega Y Gasset, filósofo espanhol teria dito que “não sabemos o que acontece e isso é o que acontece”. A inconstância do presente é agravada por uma névoa que nos tapa a visão de um horizonte mais longínquo. Perceber-se no processo de construção de um futuro a nível de humanidade é o que Edgar Morin identifica como Via para o futuro da humanidade. Diante de todo remorso individual, não devemos ser “mártires da hipocrisia nem da virtude”, para retomar o poeta. Devemos buscar a continuidade da espécie em consonância com nossa natureza e nossa condição social: características típicas e exclusiva dos seres humanos.

whatsapp-logo-1.png

Comentários

Ogro nas redes

  • Perfil do Ogro Historiador
  • Instagram

2018 Ogro Historiador | Ao reproduzir qualquer conteúdo deste portal, dê os créditos.