O Patrimônio Cultural no Ocidente

Por Hugo Rincon

06 de Dez de 2018

O Coliseu de Roma (Anfiteatro Flaviano), construído entre os anos 68 e 79 de nossa era. A Itália é o país com o maior número de tombamentos de patrimônios históricos e artísticos da humanidade pela UNESCO.

A história do patrimônio no Ocidente, ou melhor, das relações de apropriação ou "patrimonialização" de objetos, monumentos, prédios, cidades e mais recentemente de práticas, fazeres e tradições, também chamados de "patrimônio imaterial", vem ganhando diferentes abordagens desde o culto às artes, às ruínas e aos monumentos pelos renascentistas no início da Era Moderna[1]. Essa forma do homem e das sociedades lidarem com o patrimônio e os objetos de patrimonialização, baseada na teoria de Dominique Poulot, pode ser dividida em três fases ou períodos, que entendemos como um "Antigo Regime de Patrimonialização", um "Regime Moderno de Patrimonialização" e por último, uma espécie de "patrimonialização emancipatória".

 

O primeiro período desse processo de apropriação seria uma forma de antigo regime do patrimônio, especialmente entre os séculos XVII e XIX, com base no mecenato do renascimento cultural na península italiana nos séculos XVI e XVII, formado basicamente por colecionadores de obras de arte e interesses particulares, que formavam seus museus privados e coleções próprias de artigos que mais tarde seriam considerados patrimônios públicos.

A famosa obra Monalisa (1503 - 1506) de Leonardo da Vinci. Pintura a óleo sobre madeira de álamo (77 cm x 53 cm) exposta no Museu do Louvre em Paris. Foto: Arquivo Pessoal (Paris, FR, 2017)

O segundo período dessa apropriação do patrimônio seria o regime moderno do patrimônio, que, principalmente após a Revolução Francesa (1789), transformou as concepções de patrimônio, trazendo pela primeira vez na constituição aquilo que viria a ser uma política pública destinada ao patrimônio público, também fruto da desapropriação de coleções de artes da nobreza pelos revolucionários e o início da criação de museus públicos e aquilo que mais tarde seriam considerados monumentos de Estado, ou monumentos nacionais.

Museu do Louvre em Paris. Inaugurado em 1793 durante o processo revolucionário. As primeiras exposições contavam com obras de arte expropriadas e confiscadas da nobreza, da Igreja e da realeza francesa. Foto: Arquivo Pessoal (Paris, FR, 2017).

Ao longo do século XIX, com a explosão das revoluções e dos nacionalismos, a unificação dos Estados Nacionais, sobressairia à tentativa do uso de monumentos e o patrimônio enquanto políticas públicas de construção identitária, na massificação dos públicos, com a afirmação de coletividades ou de uma "comunidade imaginada", como definira Benedict Anderson (2008). Da Revolução Francesa ao final do século XX, o patrimônio ganhou do ponto de vista da legitimidade, uma "antropologia política e jurídica de longa duração, permitindo inscrever-se em uma filiação e reivindicar uma transmissão" (POULOT, 2009: 199).

Arco do Triunfo (Paris, França). Obra iniciada em 1806 a mando de Napoleão Bonaparte com o objetivo de comemorar suas vitórias militares. Em 1920, já no contexto da política pública da República Francesa e da emergência dos nacionalismos no entre guerras, recebeu o túmulo do soldado desconhecido em memória dos soldados franceses mortos na Primeira Guerra Mundial.

No século XX, posteriormente a Segunda Guerra Mundial, as políticas públicas, principalmente educativas e culturais do Estado, como também sociais e urbanas, transformaram o "culto à herança", conforme Alois Riegl, em uma questão de preocupação geral da nação, e bem comum da pátria, deixando de ser apenas um interesse restrito a determinados grupos da elite econômica e/ou intelectual.

 

A partir da década de 1960, a definição de cultura muda, passando a englobar os diversos aspectos das práticas sociais e juntando alta e baixa cultura, enquanto efervescia o debate sobre as definições de patrimônio, seja material ou imaterial. Essa questão nos leva ao terceiro período da patrimonialização, o que entendemos por uma patrimonialização emancipatória, que "longe da definição canônica de uma herança cultural coerente a ser transmitida à geração seguinte, assistiu-se à emergência da ideia de culturas múltiplas, propícias a alimentar e a fortalecer a pluralidade de identidades" (POULOT, 2009: 199).

Ritxòkò - Bonecas Karajá. Produção artística dos indíos Karajá (Goiás e Tocantins, Brasil) que se tornou Patrimônio Imaterial do Brasil.

Diferente das relações patrimoniais anteriores, essa nova modalidade prioriza as demandas dos grupos sociais na reivindicação do que consideram que deva ser patrimonializado sobre a sua cultura, passando obviamente por um conselho de especialistas que julgam a legitimidade da requisição, nos níveis acadêmicos (nos campos da história, museologia, antropologia, arqueologia, arquitetura etc.), aos conselhos municipais, estaduais e federais (e também internacionais, como é o caso da Unesco, que define os patrimônios históricos da humanidade).

 

De certa forma, essa nova perspectiva rompe parcialmente com o elitismo anterior que atendia apenas as reivindicações de interesses econômicos, voltados ao turismo, ou nacionalistas, políticos. Não totalmente, pois ainda depende de uma série de fatores para que grupos com pouca representatividade ou poder aquisitivo consigam que suas demandas sejam atendidas.

[1] O conceito de patrimônio passou por diversas transformações ao longo dos tempos. Atualmente, este conceito é dividido em duas categorias: material e imaterial. O patrimônio material estaria voltado aos testemunhos físicos do passado, monumentos, objetos acabados. O patrimônio imaterial estaria ligado também a testemunhos do passado, mas que sua importância não está na condição física, mas na representação, nas tradições orais, ritos, saberes, como festas religiosas que invocam uma tradição e costumes de outros tempos.

Referências Bibliográficas

 

ANDERSON, Benedict R. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

 

AZEVEDO, H. R. O Mosteiro da Batalha: da construção do lugar de memória ao monumento e patrimônio histórico. In: CAMPOS, Yussef D. S.; FERREIRA, Lúcio Menezes (orgs.). Tramas do Patrimônio Cultural: identidade, memória e localidade. Juiz de Fora: Editar, 2018. p. 239 - 257. Disponível em: https://www.academia.edu/36203256/O_Mosteiro_da_Batalha_da_constru%C3%A7%C3%A3o_do_lugar_de_mem%C3%B3ria_ao_monumento_e_patrim%C3%B4nio_hist%C3%B3rico

 

CAMPOS, Yussef D. S.; FERREIRA, Lúcio Menezes (orgs.). Tramas do Patrimônio Cultural: identidade, memória e localidade. Juiz de Fora: Editar, 2018.

 

CASTELNUOVO, Enrico. O artista. In LE GOFF, Jacques (dir.). O homem medieval. Lisboa: Presença, 1989, pp. 145 - 164.

 

HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções. 33ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.

______; RANGER, Terence (Orgs.). A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017.

 

LE GOFF, Jacques. História e memória. 7ª ed. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2013.

 

NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Revista do Programa de Estudos Pós Graduados de História da PUC-SP, v. 10, 1993, p. 7 - 28.

PEIXOTO, Paulo. A corrida ao status de patrimônio mundial e o mercado urbano de lazer e turismo. Veredas - Revista Científica de Turismo. v. 1, n. 1, Lisboa, 2002. p. 23-46.

 

PEREIRA, Júlia Wagner. O Tombamento: de instrumento a processo na construção de uma ideia de nação. In: CHUVA, Márcia; NOGUEIRA, Antônio Gilberto Ramos (Orgs.). Patrimônio cultural: políticas e perspectivas de preservação no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad X: 2012.

 

POULOT, Dominique. Uma história do patrimônio no Ocidente, séculos XVIII - XXI: do monumento aos valores. São Paulo: Estação Liberdade, 2009.

 

RIEGL, Alois. O culto moderno dos monumentos: sua essência e sua gênese. trad. de Elane Ribeiro de Peixoto e Albertina Vicentini. Goiânia: Editora da UCG, 2006.

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