“Pelas moças bonitas, eu vou torcer, eu vou...”

Por Philippe Sartin

02 de Nov de 2018

Voltava certo dia da USP, pelas três da tarde, uns quatro anos atrás. Duas beldades sentaram-se nos bancos laterais do trem, já na Linha Verde. Estávamos tão próximos – eu era base de um “L”, elas, a haste – que mal pude contemplar-lhes a ostensiva beleza, sem parecer indelicado – ou abusado. Pejo que não teve um rapaz, apresentando-se gaiatamente diante das meninas.

 

Segurava-se de pé, com alguma displicência, quando reparou nas garotas: ambas sem muita maquiagem, ou adereços, mas com saias curtas, e pernas compridas. Pelo pouco que me lembro. Num gesto teatral e quixotesco – perdoa-me, querido Cervantes – o rapaz abriu a mochila e esgrimiu falicamente O Anticristo, de Friedrich Nietzsche.

 

Explico ao leitor desavisado: o filósofo de Röcken, autor do Zaratustra e de inflamados aforismas, é o mascote preferido dos que desejam afetar aquela aura de mistério e conhecimento para atrair as fêmeas de sua espécie nos cursos de ciências humanas. Segundo a difundida teoria de que mulheres gostam de intelectuais...

 

Hoje, com algum distanciamento, compadeço-me do vivente. Naquele instante, entretanto, mal contive o riso. A simples suposição de que aquelas lindas meninas pudessem reparar num homem porque o homem em questão lia – aliás, fingia ler – um filósofo considerado louco e rebelde era a prova cabal da mediocridade de espírito em que vivemos, e que o próprio Nietzsche diagnosticara há cem anos.

 

Durou pouco o espetáculo. As garotas saltaram na Brigadeiro, sem se dar conta do arremedo de virilidade que era a bravata intelectualóide daquele pobre rapaz. O qual, é preciso dizer, fechou o livro assim que as meninas desceram, sentando-se no lugar de uma delas. Talvez para esquentar a bunda, não sei. Não sou nietzscheano.

 

Não digo que as mulheres bonitas não se interessem por filosofia, simplesmente porque não é verdade (beijo, amor). Mas é deprimente perceber que a obra de um pensador tenha se tornado – na mente de alguns de seus leitores – mero sexy appeal. Ainda bem que nem sempre funciona.

 

Obrigado meninas. Vou torcer por vocês.

* O título é um verso da música “Eu vou torcer”, de Jorge Ben Jor, do álbum “A Tábua de Esmeraldas” (1974, Philips Records).

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