O futebol na política e a política no futebol: o ano de 2018

Por Wendryll Tavares

08 de Dez de 2018

Em um dos textos mais polêmicos escritos neste ano, o jornalista Tiago Leifert defendeu que “quando política e esporte se misturam dá ruim”. Usando o exemplo de Colin Kapernick, que durante a execução do hino nacional estadunidense se ajoelhava em protesto contra a violência policial à qual os negros são submetidos, Leifert mostra como o posicionamento político pode gerar transtornos inclusive aos próprios atletas, já que Kapernick se encontra desempregado desde a temporada de 2017. O jornalista também defende que o atleta só tem atenção das câmeras por conta da camisa esportiva que veste e da sua perfomance esportiva. Para ele, assistir uma partida de vôlei, basquete ou futebol é “um desligamento da realidade” e o “esporte precisa ser deixado em paz”, principalmente em ano eleitoral. Para ser justo, Leifert defende que um atleta possa se posicionar, desde que o faça na rede social e não no campo de jogo[1]. O que é um total absurdo em uma sociedade que reclama das entrevistas monótonas de atletas.

 

O ano futebolístico de 2018 prova que Tiago Leifert não poderia estar mais errado, já que as questões políticas permearam eventos futebolísticos o ano todo. Para começar citarei um caso espanhol. La Liga (a liga de clubes espanhola), que começou no segundo semestre de 2017 e terminou no primeiro semestre de 2018, tem entre os maiores clubes um sediado na Catalunha. Esse clube, o Barcelona, diante dos acontecimentos que cercaram o referendo pela separação da Catalunha, jogou de portões fechados contra o Las Palmas, isso depois de aventar a não realização da partida[2]. Muitos sabem que o clube espanhol é considerado um símbolo do orgulho catalão, principalmente após o início da ditadura do General Franco. Em todos os jogos realizados no Camp Nou, exatamente aos 17 minutos e 14 segundos, parte da torcida se manifesta em favor da independência catalã, inclusive com bandeiras da Catalunha sendo balançadas por torcedores. Bandeira essa que tem suas cores reproduzidas na braçadeira do capitão do clube. O próprio lema do clube, “Més que un club”, invoca à identidade e cultura barcelonista e catalã[3]. Claro, essa identificação do clube com a comunidade que o cerca não é exclusividade barcelonista e vários clubes pelo mundo são símbolos disso. O “Barça” foi lembrado aqui somente por conta da tentativa separatista catalã.

 

Saindo um pouco da questão clubística, é bom lembrar que neste ano ocorreu a Copa do Mundo. Antes da competição começar já havia uma celeuma entre Rússia (sede) e Inglaterra por conta do assassinato de um ex-espião russo dentro de território britânico[4]. Durante o mal-estar internacional, o próprio Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido advertiu sobre os riscos de se viajar para a Rússia e a Primeira-Ministra Theresa May não enviou representantes oficiais ao evento esportivo[5]. Em outro caso célebre, a delegação alemã teve problemas no elenco antes mesmo do início do torneio, já que dois jogadores do plantel, Mesut Özil e Ilkay Gündogan (ambos descendentes de turcos), posaram para fotos com o presidente (ou ditador para alguns) turco, Recep Tayyip Erdogan. O encontro não “pegou bem” e o próprio Presidente da Federação Alemã de Futebol, Reinhard Grindel, criticou a ação dos jogadores: “O futebol e a DFB [Federação Alemã de Futebol] defendem valores que não são respeitados suficientemente por Erdogan. Por isso, não é bom quando nossos jogadores são manipulados para sua campanha eleitoral[6]”. Além disso, o próprio fato da competição ser realizada na Rússia foi o suficiente para as pessoas conhecerem o regime de Putin. De forma similar ao que ocorreu no Brasil e África do Sul, jornais pelo mundo acusaram a FIFA e o governo russo de terem manchado o evento com corrupção[7]. Bem, levando em conta que a próxima Copa do Mundo será no Qatar, essas denúncias devem continuar. Se olharmos bem, poderíamos enumerar exemplos infindáveis antes mesmo do início da Copa, mas é melhor avançar e conhecer algumas polêmicas ocorridas durante o andamento do mais importante campeonato mundial de futebol.

 

Na primeira fase do torneio, mereceu grande destaque a polêmica envolvendo o jogo entre Sérvia e Suiça. Durante a partida, Xhaka e Shaqiri (o primeiro descendente de albano-kosovares e o segundo um kosovar filho de albaneses) comemoraram seus gols fazendo uma águia de duas cabeças com as mãos, animal símbolo da Albânia. Sendo a maioria da população kosovar identificada etnicamente com a Albânia e tendo o Kosovo declarado sua independência da Sérvia em 2008, o ato pareceu um desabafo e provocação ante os sérvios[8]. Se esses dois jogadores não tivessem se manifestado durante a partida, muita gente sequer saberia da existência da questão. Digo isso porque o próprio narrador do jogo (pela TV Globo) acabou por confundir os gestos de Xhaka e Shaqiri com uma “pomba da paz” (eu estava acompanhando a transmissão!).

 

As questões que envolvem os Balcãs foram inclusive a tônica da fase final do campeonato. Tudo porque a seleção croata foi avançando até chegar à final da competição. A imprensa europeia (e brasileira) falava muito da simpática Presidenta Kolinda Grabar-Kitarovic, uma conservadora envolvida em escândalos que vão desde o uso de recursos públicos para fins privados até falas anti-imigração e simpatias fascistas (foi fotografada com a bandeira do Ustache)[9]. Durante o torneio ela era sempre filmada torcendo com a camisa da seleção croata em gestos pouco usuais para os antipáticos chefes de Estado nas tribunas (quando ela estava nas tribunas, já que assistiu partidas na arquibancada). Outro caso muito debatido entre os croatas foi o do zagueiro Domagoj Vida, que durante a partida semifinal contra a Inglaterra foi muito vaiado pela torcida russa presente no estádio. Tudo isso porque Vida participou de vídeos em que dizia “Viva Ucrânia!” (ele jogou na Ucrânia durante anos). É importante lembrar que apesar de Vida não ter sofrido nenhuma reprimenda mais séria, um membro da comissão técnica croata foi expulso da delegação após a divulgação do primeiro vídeo (foram dois)[10]. Todos sabemos que Rússia e Ucrânia estavam e estão vivendo um conflito politico-militar.

 

A outra seleção finalista do torneio não ficou livre de polêmicas. A maior dentre elas envolveu a questão da imigração. Muito antes do torneio, Karin Benzema acusava o técnico Didier Deschamps de não convocá-lo por questões raciais[11]. Quando o plantel foi definido, foi possível perceber como a seleção francesa era um grande caldeirão étnico, já que dos 23 jogadores convocados, pelo menos 19 tinham credenciais para jogar por outras seleções[12]. Dos jogadores que alicerçavam o time, Lloris, Kanté, Pogba, Griezmann e Mbappé, somente o primeiro não tinha raízes em um país estrangeiro. Como a França vive um longo debate a respeito da questão da imigração, essa seleção (como a de 98) serviu para problematizar mais uma vez o multiculturalismo no país de Napoleão Bonaparte[13].

 

Saindo da Europa e entrando no continente africano, a política e o futebol tiveram qualquer barreira quebrada. Tudo isso por conta de George Weah, o craque liberiano que foi eleito presidente. Desde o dia 22 de janeiro de 2018, a Libéria possui como presidente um ex-jogador de futebol (e um dos melhores[14]!). Além desse fato, tivemos a decisão da Confederação Africana de Futebol de retirar a sede da próxima Copa Africana de Nações de Camarões por conta do atraso das obras e também devido a um movimento separatista em andamento dentro do país de Samuel Eto’o[15]. Não é a primeira vez que o torneio continental tem sua sede alterada por conta de questões políticas, já que em 2013 a Líbia receberia as finais, o que acabou não ocorrendo por conta da Guerra Civil. Por último (no continente africano), não podemos esquecer do jantar entre seleção egípcia e Ramzan Kadyrov, representante russo na Chechênia, em que Kadyrov concedeu cidadania chechena a Mohamed Salah (a estrela futebolística africana do momento), em uma grande cena político-publicitário[16].

 

Indo para o Oriente Médio, o Beitar Jerusalém mais uma vez foi destaque. Isso porque o clube decidiu mudar seu nome para Beitar “Trump” Jerusalém para homenagear o principal responsável pela mudança da embaixada estadunidense de Tel Aviv para Jerusalém[17]. O clube que tem uma vasta tradição sionista revisionista, já havia sido destaque há algum tempo por proibir a contratação de jogadores muçulmanos até 2013 (essa história gerou o documentário Forever Pure).

 

Para não me alongar demais é preciso passar ao continente em que vivo, a América especificamente a América do Sul. Por aqui o torneio continental de clubes foi recheado de confusões políticas. Primeiro por conta das denúncias de favorecimento político aos times argentinos em desfavor dos times brasileiros (Santos e Grêmio). Depois, passou-se ao drama em torno da final da Copa Libertadores da América entre River Plate e Boca Juniors. Já foram três os adiamentos dos jogos finais, um do primeiro jogo por conta da chuva e dois do segundo jogo por conta da confusão em torno do Monumental de Núñez. O próprio presidente argentino, Maurício Macri (ex-presidente do Boca Juniors), interveio para que a segunda partida fosse realizada, já que o Boca Juniors se negava a jogar. O mais irônico é que a Conmebol decidiu por colocar o jogo final da Libertadores da América (UM TORNEIO QUE HOMENAGEIA OS HERÓIS DAS INDEPENDÊNCIAS AMERICANAS, COMO SAN MARTÍN) na antiga capital do Império Colonial Espanhol, Madri[18]. Essa decisão sugere o atual estágio de organização política sul-americana.

 

Por último e não menos importante, temos os casos brasileiros. Por aqui tivemos, por exemplo, a candidatura do Senador Romário ao governo do Rio de Janeiro, que acabou não sendo bem-sucedida. Para além disso, tivemos a grande participação de pessoas do mundo do futebol na campanha presidencial. Jogadores e ex-jogadores como Felipe Melo, Jadson, Diego Souza, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Cafu[19] declararam apoio a Jair Bolsonaro. Até mesmo um clube, o Atlético Paranaense, posicionou-se e entrou em campo com uma camiseta de apoio ao mesmo presidenciável antes da realização do primeiro turno das eleições, sendo o zagueiro Paulo André o único jogador do time a se recusar a usar a camiseta. A atitude do Atlético Paranaense foi punida com uma multa de setenta mil reais[20].

 

Após o final das eleições e com a vitória de Bolsonaro, o Palmeiras e a Confederação Brasileira de Futebol (não está claro de quem partiu a ação) convidaram o presidente eleito para a festa do título. Ocorreu de tudo na ocasião, técnico campeão prestando continência ao presidente eleito, foto de Bolsonaro com o elenco campeão, entrega de medalhas pelo capitão reformado etc. Bolsonaro pôde até levantar a taça de campeão brasileiro de 2018 e dar volta olímpica com os campeões (em uma das cenas mais insólitas que assisti na história do futebol brasileiro).

 

Esses inúmeros casos de 2018 nos levam a concluir que o futebol e a política não só se misturaram este ano, mas também que foi difícil separá-los. Jogadores se posicionaram, presidentes de clubes, federações e confederações apoiaram políticos, torcedores gritaram cânticos politizados nos estádios, políticos frequentaram estádios em busca de voto. 2018 provou também que além do velho e clássico uso político do futebol, foi possível observar muitos futebolistas invadindo o território da política. Isso nos leva a conclusão de que o que acontece no futebol não está descolado do resto do mundo. Não são campos separados e blindados um do outro. Prova disso é a situação política brasileira atual, já que no primeiro dia de janeiro, teremos a posse de um Presidente da República advindo do grupo militar, Jair Bolsonaro, ao mesmo tempo em que o Presidente da CBF será também um militar da reserva, Coronel Nunes, algo que não acontece desde 1978. Seria essa uma coincidência?

 

[1] https://gq.globo.com/Colunas/Tiago-Leifert/noticia/2018/02/evento-esportivo-nao-e-lugar-de-manifestacao-politica.html.

 

[2] Apesar da partida ter ocorrido em 2017, a liga só foi concluída em 2018. Por isso utilizei o caso.

 

[3] https://www.fcbarcelona.com/en/club/more-than-a-club#. Acesso em 07/12/2018.

 

[4] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-43357998. Acesso em 07/12/2018.

 

[5] https://globoesporte.globo.com/futebol/selecoes/inglaterra/noticia/envenenamento-de-espiao-afastou-ingleses-da-copa-mas-sucesso-deve-mudar-isso.ghtml. Acesso em 07/12/2018.

 

[6] https://www.dw.com/pt-br/%C3%B6zil-e-g%C3%Bcndogan-s%C3%A3o-criticados-por-foto-com-erdogan/a-43783844. Acesso em 07/12/2018.

 

[7] https://oglobo.globo.com/opiniao/copa-na-russia-repete-corrupcao-de-torneio-no-brasil-22732801. Acesso em 07/12/2018.

 

[8] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/06/23/deportes/1529768574_136993.html. Acesso em 07/12/2018.

 

[9] https://www.bbc.com/portuguese/geral-44853971. Acesso em 07/12/2018.

 

[10] http://www.espn.com.br/futebol/artigo/_/id/4530583/copa-do-mundo-zagueiro-croata-vida-e-vaiado-por-russos-durante-jogo-apos-polemica. Acesso em 07/12/2018.

 

[11] https://gauchazh.clicrbs.com.br/esportes/noticia/2016/06/acusacoes-de-racismo-de-benzema-causam-polemica-na-franca-5823630.html. Acesso em 07/12/2018.

 

[12] https://globoesporte.globo.com/futebol/selecoes/franca/noticia/os-dois-lados-da-migracao-franca-tem-19-gringos-na-selecao-e-29-nativos-em-outros-paises-da-copa.ghtml. Acesso em 07/12/2018.

 

[13] https://medium.com/revista-subjetiva/a-fran%C3%A7a-campe%C3%A3-mundial-%C3%A9-a-de-mbapp%C3%A9-n%C3%A3o-a-de-le-pen-a0275500c55. Acesso em 07/12/2018.

 

[14] https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/28/internacional/1514485456_770692.html. Acesso em 07/12/2018.

 

[15] https://istoe.com.br/camaroes-perde-sede-da-copa-africana-por-obras-atrasadas-e-problemas-de-seguranca/. Acesso em 07/12/2018.

 

[16] https://globoesporte.globo.com/futebol/selecoes/egito/noticia/em-jantar-para-o-egito-politico-anuncia-que-tornou-salah-cidadao-checheno.ghtml. Acesso em 07/12/2018.

 

[17] https://www.record.pt/internacional/detalhe/donald-trump-da-nome-ao-beitar-jerusalem. Acesso em 07/12/2018.

 

[18] https://globoesporte.globo.com/futebol/libertadores/noticia/presidente-da-conmebol-diz-que-river-x-boca-em-madri-e-excepcional-nao-pretendemos-repetir.ghtml. Acesso em 07/12/2018.

 

[19] https://www.lance.com.br/futebol-nacional/jogadores-atletas-causam-polemica-declarar-voto-bolsonaro-veja-lista.html. Acesso em 07/12/2018.

 

[20] https://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,atletico-pr-e-multado-em-r-70-mil-pelo-stjd-por-manifestacao-pro-bolsonaro,70002554696. Acesso em 07/12/2018.

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