Pseudo quem?

Por Philippe Sartin

11 de Dez de 2018

O pseudointelectual, a rigor, não existe. Diversamente, entretanto, de outros neologismos irritantes, sua inexistência provém de uma impossível enunciação, e não de um maneirismo da língua: ninguém se considera pseudointelectual; pseudointelectual é sempre o outro. Assim, aquele que assinala a pseudointelectualidade alheia, abriga-se, presumidamente, numa tal redoma de intelectualidade, a partir de uma presunção tacitamente tão evidente, que faz suspeitar. Não seria o acusador, ele mesmo, um pseudointelectual? Estariam os “pseudo”, deste modo, habilitados a assinalar-se?

 

O paradoxo, provavelmente, é herdeiro de alguma questão moral. Num âmbito sempre tão sutil e cambiante, e com tantas e tão polêmicas genealogias, as suspeitas de que os hipócritas são os principais denunciadores da hipocrisia sempre existiram. Jesus era o único que podia fazê-lo de maneira indene – se, claro, assumirmos como certa a sua ascendência divina – e o fez com alguma dedicação. No mais – sobretudo desde o século XX, quando o vocabulário da psicanálise lentamente adentrou o senso comum – fiscalizar a moral alheia pode significar depor contra si próprio no tribunal moral de um terceiro. Ou como dizem as funkeiras freudianas, assumir a pecha de “recalcado”.

 

Se a perfeição presumida é o que permite o reparo na imperfeição alheia, e se aquele que acusa torna-se o suspeito imediato de um crime compartilhado, toda a raiva acumulada, e a irritação indisfarçável que tu e eu, benigno leitor, sentimos pela execrável figura do pseudointelectual talvez devesse nos levar a cutucar a consciência. Como disse certa vez Leszek Kolakowski, quem não experiencia, vez ou outra, a sensação de ser um charlatão é provavelmente tão superficial que não merece sequer ser ouvido.

 

Qual de nós, com efeito, poderá dizer que nunca agiu como se soubesse exatamente do que se estava falando, sem entender uma só palavra? Eu não posso, mea culpa. Claro que, em minha defesa, trata-se de uma técnica eficaz em dissuadir explicações monótonas de interlocutores enfadonhos. “Ah sim, claro... conheço demais... dá licença? Preciso ir ali ao canto da sala, e contemplar o vazio”. (Embora o leitor mais agudo já tenha percebido o potencial de pseudointelectualidade contida nesta afirmação).

 

E há outra armadilha, muito comum: envaidecer-se com elogios sobre a sua inteligência, ou “cultura”. Ah, meu amigo... e minha amiga também: quando você não é rico(a), ou bonito(a), não lhe sobra muito mais que ser “jeitoso(a)”, esperto(a), inteligente. E pode acontecer que, dadas estas condições, você invista muito tempo e expectativa em granjear a simpatia alheia pelo caminho do espírito. Doce engano.

 

Dito tudo o que se disse acima, ainda é possível detestar o pseudointelectual e fugir dele. Embora faltem critérios objetivos para defini-lo, ainda é possível intuir sua presença entre nós. O que me lembra uma observação agudíssima de J. L. Austin: por mais que o sonho e a realidade se assemelhem num determinado nível, sempre que acordamos, sabemos reputar-lhes as inelutáveis diferenças. É só dar tempo ao sujeito, dar corda toda vida: o primeiro que se enforcar é o exemplo a não ser seguido. Cedo ou tarde os charlatães se entregam.

 

Acordemos nós também. Assumamos nossa ignorância. Quando todos o fizerem, quando isso se tornar um hábito, não haverá vergonha alguma em fazê-lo, ou benefício possível em disfarçá-lo.

 

Indicações de leitura:

 

AUSTIN, J. L. Sentido e percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

 

KOLAKOWSKI, Leszek. Horror metafísico. Campinas: Papirus, 1990.

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