Artigo de Opinião

Quem é Mais Religioso: Cristãos ou Muçulmanos?

Por Thiago Damasceno Pinto Milhomem

22 de Set de 2021

Na disputa pela maior devoção espiritual, quem é mais religioso: cristãos ou muçulmanos? Essa pergunta-título é estranha, descabida e nem é válida para as Ciências Humanas. Contudo, a uso para chamar atenção para o tema deste texto: o entendimento - infelizmente comum - de que os muçulmanos são sujeitos exclusiva e totalmente religiosos. Essa visão ajuda na construção de estereótipos sobre eles, fazendo com que muitas pessoas não vejam os muçulmanos como seres humanos carregados de diversidade e formas de pensar e agir que não são, necessariamente, religiosas.

 

Seguindo o estilo do meu texto anterior, O Que Você Pensa Sobre os Muçulmanos?, continuarei analisando a maneira como nós, considerados cristãos ocidentais, entendemos e falamos sobre os crentes do Islām, considerados orientais e totalmente diferentes de nós, que vemos a nós mesmos como os mais civilizados e menos problemáticos do universo. No geral, para a nossa religião reservamos a aceitação, a compreensão e as explicações contextuais de caso a caso. Para a religião islâmica, reservamos as generalizações e os juízos de valores que sintetizam de forma simplória e condenam os muçulmanos. No caso da devoção religiosa, não é diferente.

Nesses meus nove anos pesquisando história e cultura árabe-islâmica, observei séries, filmes, livros e troquei ideias com diferentes pessoas no cotidiano sobre meu campo de estudos. Nesse processo, percebi que muitos superestimam a devoção ou a religiosidade dos muçulmanos, chegando a desumanizá-los. É comum pensarem que qualquer muçulmano representa o mundo islâmico e que qualquer muçulmano está para o Islām como o papa está para o catolicismo. Ou até mais que isso! Em resumo: geralmente, se pensa que todos os muçulmanos e todas as muçulmanas vivem por conta de sua religião 24 horas por dia, 365 dias por ano!

Mas calma, não me entendam mal: não estou aqui julgando quem é mais ou menos dedicado à sua crença religiosa muito menos fazendo uma avaliação moralista. Isso não cabe a mim como historiador e tampouco isso é algo que possa ser facilmente mensurado. Também sei que o Islām, sendo um dīn (termo árabe), é mais do que uma religião no sentido ocidental contemporâneo, mas um modo de vida, um código de conduta para o campo pessoal e social. O Islām é um modo de ser para os muçulmanos como sujeitos individuais e como comunidade (Umma). Entretanto, isso não quer dizer que todos os muçulmanos seguem rigorosamente a sua religião o tempo todo e que qualquer muçulmano seja, automaticamente, um representante legítimo e coerente do enorme e diverso mundo islâmico. Novamente: não estou julgando a religiosidade alheia, apenas tentando transmitir uma imagem mais humanizada e realista sobre os muçulmanos. Continue lendo o restante da minha argumentação para entender melhor.

É fácil admitir que temos diferentes demandas nas nossas vidas. Temos nossos empregos, estudos, hobbies e outras atividades que não envolvem diretamente nossa religião. E aí é que está o X da questão: nós, ditos cristãos ocidentais, não somos 100% cristãos o tempo todo, mas achamos que os muçulmanos são (e que devem ser). Nesse modo de pensar, achamos que tudo que qualquer muçulmano ou muçulmana faça (ou não faça), diga (ou não diga) e pense (ou não pense) é um mandamento da sua religião.

Essa forma de entendimento é um perigo e um desserviço para a compreensão do Outro e para a convivência social porque ajuda a criar o famoso estereótipo do muçulmano. Em um artigo para a revista Comunicação e Educação, a professora Maria Aparecida Baccega afirma que o estereótipo é, basicamente, um “tipo aceito”, uma “versão padronizada” sobre coisas e grupos sociais. Esse “padrão corrente” de entendimento possui pré-conceitos e pré-juízos negativos e condiciona comportamentos de repúdios ao Outro e é transmitido de geração em geração sem que se perceba.  

A visão estereotipada sobre algo, alguém ou grupos não é baseada em estudos ou experiências reais, mas em achismos. Um exemplo claro de estereótipo para entendermos de vez essa questão: dizer que índios são preguiçosos ou que toda pessoa que more nas periferias é bandida.

Voltando à questão de como os muçulmanos são vistos...

Quando pensamos que tudo que um muçulmano faça, diga ou pense vem de sua religião, fortalecemos e ajudamos a criar estereótipos sobre esse grupo em específico, pois vinculamos toda a diversidade de uma religião planetária aos atos de uma só pessoa ou de algum grupo. Nesse processo, hiper dimensionamos/exageramos o papel da religião na vida do Outro. Funciona assim: se um muçulmano vai à padaria comprar pão de leite em vez de pão francês, deve ser porque o Islām manda fazer isso. Se um muçulmano compra um tapete persa, provavelmente é porque Deus ordena que se comprem tapetes persas. Se um muçulmano faz um atentado terrorista em nome de Deus, adivinha?... O Alcorão, livro-base da religião islâmica, deve defender que se faça isso. Está lá na página 2 e no parágrafo 5 a ordem para os muçulmanos atacarem o World Trade Center (modo sarcasmo ativado).

É claro que certas condutas e usos de determinados objetos (com significados também simbólicos) fazem parte do “modo de ser islâmico”, como o véu (hijāb) e o “rosário” (masbaḥa). Mas nem mesmo esses objetos mais evidentes são utilizados por todos os muçulmanos e muçulmanas. Além disso, no Alcorão existem coisas que são mandamentos, coisas que são proibidas e coisas que são permitidas, porém, não recomendadas. Por exemplo: consumo de álcool enquanto bebida alcoólica e recreativa é terminantemente proibido. Álcool só pode ser usado como produto medicinal e para higiene. Aos muçulmanos e às muçulmanas é ordenado que se cubram e que sejam recatados e modestos no vestir. Como isso é feito na prática, vai depender de cada região e conforme cada escola jurídica que interpreta o Alcorão. E são muitas escolas jurídicas: na casa das 80! Já o divórcio é permitido, mas não recomendado, posto que constituir família é parte da religião, do dīn. E como exemplo de ato ordenado e recomendado está a caridade.

 

Ou seja: há muitos aspectos dentro da religião islâmica, muito além da ideia que se tem de que o Alcorão é um livro repleto apenas de coisas ordenadas em uma página e coisas proibidas na página seguinte e assim sucessivamente.  

Esse modo de entender a (hiper) religiosidade do Outro muçulmano chega inclusive a ser cruel, pois é difícil relacionar bons atos – como caridade, respeito e tolerância ao próximo e discursos pacifistas – ao credo e à prática islâmica. Tende-se a relacionar apenas tudo que é ruim e considerado estranho ou excêntrico ao Islām. A tendência é pensar que os muçulmanos não têm demandas em suas vidas que não estão diretamente relacionadas à sua religião. Geralmente, se pensa que tais fiéis passam o dia inteiro, todos os dias, orando, fazendo, pensando e dizendo tudo em nome do Islām. Nem na Idade Média, que era uma época bastante religiosa, as pessoas ficavam o dia inteiro em função de suas crenças, imagine hoje, em um mundo mais conectado e cientificista que nos apresenta diferentes necessidades e atividades. Desde que o ato não contrarie as normas religiosas, os muçulmanos podem fazê-lo. 

De forma clara, estou dizendo que os muçulmanos têm outras demandas e necessidades, além das religiosas, em suas vidas. Isso não quer dizer que eles não tentem seguir sua religião da melhor maneira. E isso não os torna, necessariamente, nem mais nem menos religiosos que ninguém. Tudo isso os tornam pessoas como quaisquer outras que querem viver com paz e liberdade, que querem “tocar a vida” com planos, sonhos, medos, coragem, escolhas, defeitos e qualidades, “pecados” e virtudes. Todos esses atos e sentimentos fazem parte da vida de um muçulmano. É assim com qualquer ser humano, religioso ou ateu, cético ou crente. Com os muçulmanos, não é diferente. O hiper dimensionamento da religião do Outro desumaniza esse Outro, transformando-o num estereótipo, numa coisa.

 

Outro tema importante nessa discussão: uma coisa é a religião em teoria nos livros, com seus mandamentos, proibições e recomendações. Outra coisa são suas práticas. Tal como as outras religiões, o Islām tem suas vertentes. As principais são o sunnismo, o xiismo e o sufismo. E cada uma dessas vertentes ainda têm seus ramos!  Segundo pesquisa divulgada em abril de 2015 pelo Pew Research Center, havia 1,8 bilhão de muçulmanos no mund, colocando o Islām como a segunda religião com mais adeptos, atrás apenas do Cristianismo. Achar que todas essas pessoas fazem, pensam e dizem a mesma coisa é muita ingenuidade! Achar que qualquer muçulmano é um representante de todos os muçulmanos é outra grande ingenuidade e falta de informação! Entra aqui também a ideia de representatividade levada ao extremo e, por isso mesmo, sendo mal utilizada, pois não é qualquer parte do todo que representa o todo.

O Islām está presente em cerca de 170 países. São países árabes, africanos, asiáticos, americanos e europeus. Tal como em qualquer outro credo, a religião islâmica possui um sistema básico de crenças que lhe dá uma grande unidade, mas suas interpretações e modos de práticas variam conforme cada região e país. Uma coisa são as (muitas) práticas islâmicas no Brasil, outra coisa são as (muitas) práticas islâmicas no Egito, por exemplo. Não podemos entender o mundo islâmico como um bloco homogêneo, totalmente igual e imutável em todo o planeta, mas sim com uma religião que apresenta uma riqueza de diversidades. Vem sendo assim desde sua fundação e início de expansão pelo mundo, no século VII, até hoje.

Também não podemos esquecer que seres humanos, independentemente de suas religiões, não são estereótipos ou coisas, mas pessoas com corações – parafraseando Oswaldo Montenegro – “inundados de sentimentos”.

Fiquem na paz (salām)!

Quer saber mais sobre história árabe-islâmica? Então conheça o  História na Medina, projeto solo sobre história árabe-islâmica do ogro Thiago Damasceno, também presente no Instagram e no Facebook!

 

Conteúdos Semelhantes:

Texto: O Que Você Pensa Sobre os Muçulmanos?

 

Texto: Fátima Alfihri: a muçulmana que fundou uma universidade na Idade Média. 

 

Unguento do Ogro #34: Intolerância Religiosa e Satanic Panic.

Podcast #13: Irã: da revolução de 1979 à atualidade (com Andrew Traumann). 

 

Unguento do Ogro #09: Viagens e Viajantes no Islam Medieval.

 

Unguento do Ogro #15: As Viagens de Ibn Jubayr (século XII).

 

Unguento do Ogro #26: As Viagens de Ibn Battuta (século XIV).

 

Unguento do Ogro #32: As Viagens de Ahmad Ibn Fadlan (século X).

#opinião  #muçulmanos #mundoislâmico #religião
#cristãos #Alcorão

whatsapp-logo-1.png
Ogro Historiador - Catarse.png

Assine a nossa newsletter e receba o nosso conteúdo na sua caixa de e-mail.

Comentários