Ramaḍān: uma rememoração espiritual

Por Thiago Damasceno

10 de Mai de 2019

Segundo pesquisa feita em 2015 pelo Pew Research Center, há, no mundo, cerca de 1,8 bilhão de muçulmanos. Esse imenso contingente de fé deve jejuar, do nascer ao pôr do Sol, durante todos os dias de um mês denominado ramaḍān, que é o nono mês do calendário lunar islâmico. Neste nosso 2019 d.C. - ano 1440 da Era Islâmica - o ramaḍān iniciou em 6 de maio e irá até 4 de junho. Esse mês também é uma das principais celebrações memorialísticas do Islã. Vejamos porquê.

 

Conforme a tradição islâmica, tudo começou na 27ª noite do ramaḍān de 610: um mercador chamado Muḥammad, também conhecido como “al-Amīn” (O Confiável), meditava, como era seu costume, em uma caverna nas cercanias de Meca, a principal cidade da Península Arábica. Em certa altura da noite ele foi surpreendido, arrebatado por uma presença sobrenatural, ao mesmo tempo fantástica e aterradora: o anjo Gabriel, o mesmo anjo mensageiro presente no judaísmo e no cristianismo. Gabriel trazia a mensagem de que Muḥammad era o último profeta do Deus Único, responsável por levar a Sua correta orientação de vida para toda a humanidade. O episódio sagrado, conhecido como Noite do Poder ou Noite do Destino, marca o início da fundação histórica do Islã e da missão do seu profeta, mais conhecido em português como “Maomé”, termo mal transliterado e até pejorativo, pois essa transliteração não está de acordo com o árabe clássico ou padrão, língua litúrgica do Islã.

 

O ramaḍān, enquanto mês e ritual, lembra e comemora o episódio da noite da Revelação Divina. Nessa época, os(as) muçulmanos(as) devem se engajar ainda mais em atos comunitários, de caridade e de estudo da religião. No período diurno, em todos os dias do mês, os(as) fiéis devem se abster de alimentos, líquidos, relações sexuais, dentre outros atos que possam afastá-los(las) do objetivo espiritual do mês, que é “sentir na pele” como vivem as pessoas mais pobres e necessitadas. O ritual é um exercício de empatia, desenvolvimento da espiritualidade e de aproximação com o Divino. Desde o ano 2 da Era Islâmica ele é obrigatório para todos(as) os(as) muçulmanos(as) que tenham atingido a puberdade e que gozem de saúde física e mental.

 

Para o arabista e historiador espanhol Felipe Maíllo Salgado (2013), o ramaḍān fornece uma forte concepção de solidariedade e identidade para a comunidade muçulmana como um todo, a Umma, em árabe. Esses elementos são fundamentais para a construção de uma consciência social na Umma, mesmo que essa consciência seja dividida e contextualizada em cada meio social que exista, como acontece em toda comunidade, religiosa ou não.

 

Procurando entender a formação da consciência social, o sociólogo francês Maurice Halbwachs (2006) teoriza que a memória é um trabalho do sujeito, mas também é construída em grupo, já que o sujeito está dentro de um grupo com o qual compartilha relações afetivas. Essas relações constroem imagens que, por sua vez, constroem lembranças e essas lembranças compõem a memória coletiva de um grupo, que nada mais é do que o acervo de lembranças compartilhadas, podendo ser – e, de fato, são – organizadas e articuladas em contextos sociais específicos.

 

Como o afeto é a base de todo esse processo, podemos entender que o ramaḍān é um período memorialístico por excelência no Islã, pois é nesse período religioso que a emotividade dos muçulmanos evoca as tradições sobre a Revelação Divina ao Profeta, fortalecendo imagens, lembranças e crenças em comum e, assim, estimulam laços de solidariedade e identidade.

 

Acredito que o importante nesse período, independentemente da crença de cada um, é ressaltar seu significado de empatia, que merece ser cada vez mais rememorado em um mundo deveras intolerante, como o nosso.

 

Ramaḍān mubārak! (Um ramaḍān abençoado!)

 

 

Referências

 

ARMSTRONG, Karen. O Islã. Tradução: Anna Olga de Barros Barreto. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

 

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução de Beatriz Sidou. São Paulo: Centauro, 2006.

 

MAÍLLO SALGADO, Felipe. Diccionario de historia árabe & islámica. Madrid: Abada Editores, 2013.

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