Reforma Protestante: uma dissidência marcante

09 de Nov de 2021

A data do dia 31 de outubro é geralmente lembrada pela comemoração do dia das bruxas[1], uma festividade considerada pagã muito popular nos Estados Unidos que, por sua influência cultural, chegou no Brasil. Contudo, essa data representa um relevante marco histórico, sobretudo para o cristianismo, um evento que influenciou a humanidade mudando a relação do mundo ocidental com sua religiosidade. Esse é o dia da Reforma Protestante.

A Reforma, a grosso modo, foi um movimento dentro da Igreja Católica que ocorreu na Europa por volta do século XVI. Esse processo de longa duração envolveu elementos econômicos, políticos, intelectuais, sociais e ideológicos. O motivo decorre do que eram percebidos como erros, abusos e discrepâncias dentro a instituição eclesiástica. A esses aspectos somamos o desassossego causado pela fome, peste e morte presente no período causando o que Paul Tillich chamou de “Ansiedade da civilização[2]”. Essas ansiedades necessitavam de uma resposta a qual os lideres, sobretudo os religiosos, não conseguiram apresentar. A meu ver, o que os reformadores tentaram foi dar uma resposta imediata às ansiedade do momento frente à falha da Igreja em cumprir sua função de ser a luz do mundo mediante seus atos dando suporte aos necessitados[3].

O início da Reforma é geralmente datado em 31 de outubro de 1517 em Wittenberg, Saxônia (atualmente um estado da Alemanha), quando Martinho Lutero (1483-1546) apresentou suas noventa e cinco teses. Nelas ele confronta as práticas de venda das indulgências, as políticas doutrinarias sobre o purgatório e o julgamento individual e os abusos de autoridade do papa e arcebispos. Seu ato foi uma provocação, uma forma de proporcionar uma reflexão e debates sobre esses assuntos. Não demorou para as teses chegarem às mãos das autoridades religiosas que exigiram explicações sobre o ocorrido. No ano seguinte, Lutero foi convocado para ir à sede da Igreja em Roma para responder à acusação de heresia. Sendo considerado culpado, foi excomungado no ano de 1521.

Os atores que proporcionaram esse movimento foram muitos. Dentre eles, Martinho Lutero (1483-1546), que foi um monge agostiniano que nasceu em 1483 na cidade de Eisleben na Alemanha. A princípio, Lutero pretendia ser advogado, contudo, depois de uma experiência “espiritual” pessoal resolveu seguir a vida religiosa. A partir desta experiência Lutero entrou no mosteiro agostiniano de Erfurt em uma busca intensa pela salvação até que um dia leu as palavras escritas pelo apóstolo Paulo em Romanos 1:17 “Porque nele a justiça de Deus se revela da fé, conforme está escrito: o justo viverá da fé[4]”. Com isso, ele compreendeu o que chamamos hoje de “A doutrina da justificação pela fé”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estátua de Martinho Lutero na cidade alemã de Dresden.

Foto de Albers Heinemann. Disponível no Pixabay. 

 

Outra pessoa relevante foi Ulrico Zuínglio (1484-1531) que nasceu em Wildhaus, na Suíça, onde recebeu uma educação de vertente humanista. Inicialmente, foi sacerdote em Glarus (1506) e em Einsiedeln (1516). Influenciado pelo Novo Testamento publicado por Erasmo de Roterdã (1466-1536), tornou-se um estudioso das Escrituras e um pregador bíblico. Foi convidado para trabalhar na catedral de Zurique onde em pouco tendo sua atuação demostrou sua forma de pensar divergente da doutrina católica. Zuínglio escreveu um documento com sessenta e sete Artigos onde defendia a autoridade suprema das Escrituras, a salvação pela graça e o sacerdócio de todos os crentes.

Por último, temos João Calvino (1509-1564), oriundo de Noyon na França, onde iniciou seus estudos. Depois seguiu para Paris, onde estudou Teologia e Humanidades. Por ordem de seu pai, Gérard Cauvin, que era secretário do bispo e advogado da Igreja de sua cidade, foi estudar Direito. Quando seu genitor morreu voltou a Paris para continuar seus estudos no campo humanístico. Atuou em Genebra onde teve grande influência. De todos esses atores era o mais radical. Sua visão abrangia tornar Genebra uma cidade cristã que serviria de modelo através da reorganização da Igreja, de leis que expressassem uma ética bíblica e de um sistema educacional completo e gratuito. Deixou um importante documento, “A Instituição da Religião Cristã”, mais conhecido como “as institutas de Calvino”.

Além desses protagonistas da Reforma, não podemos deixar de citar alguns de seus predecessores como Jonh Wycliffe (1328-1384), teólogo inglês que entendia haver um grande contraste entre o que a Igreja se tornou e o que era a proposta de Igreja presente nos textos escriturísticos Mediante essa, ele constatação apontou as contradições entre as regras dos dirigentes da Igreja e os ensinamentos de Cristo e seus discípulos propondo reformas visando o retorno aos ensinamentos bíblicos. Wycliffe se destacou por sua posição referente à pobreza, defendo a volta da Igreja a essa condição seguindo os moldes da Igreja primitiva. Sua sugestão de que o governo secular deveria se apropriar dos bens da Igreja Católica passando a sustentá-la o tornou popular em sua terra.

E, por fim, temos Jonh Hus (1369-1415) padre e pensador religioso da cidade de Husinec (Reino da Boêmia atual Republica Tcheca), que difundiu o pensamento de Jonh Wycliffe, defendendo a primazia da Bíblia e a ideia do sacerdócio universal em que todos poderiam chegar a Deus sem o intermédio da Igreja ou seus representantes. O padre Hus Foi excomungado e condenado a morte na fogueira em 1415.

Nesse ponto é importante salientamos que as dissidências e conflitos no seio da Igreja Cristã são fatores presentes por toda a história eclesiástica e fora bem documentados. No tempo dos discípulos de Cristo, os textos escriturísticos documentaram a dissidência referente à necessidade da circuncisão, como podemos ver em Atos dos Apóstolos, capitulo 15, e no livro de Gálatas. No século IV tivemos a obra História eclesiástica de Eusébio de Cesareia que nos mostra o surgimento de diversas “heresias” às quais a Igreja teve de enfrentar e se posicionar ao longo dos quatro primeiros séculos da era cristã. Além desses temos as dissidências dos gnósticos, arianos, docetismos e vários outros conflitos que a Igreja Católica enfrentou ao longo de sua história.

Tendo isso em mente, a dissidência que conhecemos como a Reforma se difere das demais por ter proporcionado uma divisão profunda e permanente dentro da Igreja. Essa divisão originou o cristianismo de vertente protestante que atendia aos interesses de muitas autoridades seculares. Dessa forma, o cristianismo protestante ganhou apoio e longevidade.

Contudo, os reformadores e seus predecessores não estavam buscando inovar, mas restaurar antigas verdades bíblicas que haviam sido esquecidas ou obscurecidas pelo tempo e pelas tradições humanas. Sua maior contribuição foi chamar a atenção para a importância das Escrituras e seus grandes ensinos, especialmente no que diz respeito à salvação e à vida cristã. Segundo eles, para que as Igrejas Cristãs pudessem manter-se fiéis à sua vocação, era preciso que julgassem tudo pelas Escrituras, acolhendo o que era bom e lançando fora o que era mau. Os reformadores nos mostraram que o critério da verdade não são os ensinos humanos, nem a experiência espiritual subjetiva, mas o “Espírito Santo falando na Palavra e pela Palavra”, associado a um estudo hermenêutico profundo dos textos escriturísticos.

Do ponto de vista histórico, a Reforma Protestante nos mostra as relações de poder entre as autoridades seculares e eclesiásticas. Nessa relação, vemos um predomínio das autoridades eclesiásticas sobre a secular advindo do ganho de relevância crescente da Igreja desde a Antiguidade Tardia. Ela também nos mostra as relações de poder dentro do seio da igreja onde as autoridades eclesiásticas primavam pela preservação do status da instituição eclesiástica acima de tudo.

Por fim, a meu ver, a Reforma Protestante nos deixa dois ensinamentos. O primeiro diz respeito a relação entre a Igreja e a política. Essas esferas devem manter-se separadas. Sempre que os interesses dessas se cruzam, a sociedade sofre frente a esse embate. A segunda refere-se às dissidências eclesiásticas. A igreja tem uma tendência de refletir seus atos, mas geralmente faz más escolhas (Eusébio de Cesareia que o diga). Contudo, há um debate, o que é sempre relevante.

Neste texto tive como objetivo fazer uma reflexão. Uma opinião pessoal de um teólogo e historiador que, ao se debruçar sobre esse evento histórico, tirou suas próprias conclusões. Não pretendo com isso analisar o evento mediante documentos e historiografia. Pretendo apenas refletir sobre o fato, como se fosse uma conversa entre amigos. Agradeço a todos por terem lido e me desculpo por qualquer equívoco.

Notas explicativas: 

[1]: Dia das Bruxas ou Halloween é uma celebração observada em vários países, em 31 de outubro, véspera da festa cristã ocidental do Dia de Todos os Santos. Provavelmente teve origem em um antigo festival celta da colheita.

[2]: TILLICH, Paul. A coragem de ser. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1991. p. 31.

[3]: A questão de ser a luz do mundo está presente nos textos escriturísticos do Novo Testamento, como por exemplo em Mateus 5:14 e João 9:5. Quanto ao exemplo de vida, podemos citar os textos de Atos dos Apóstolos 2:42-47 e Tiago, Capítulo 2.

[4]: SOCIEDADE BÍBLICA CATÓLICA INTERNACIONAL E PAULUS. A Bíblia de Jerusalém. 4. ed. São Paulo: Paulus, 1995. p. 21.

Sugestões de leitura:

 

CAIRNS, Earle E. O cristianismo através dos séculos: uma história da Igreja cristã. São Paulo: Edições Vida Nova, 1995.

 

CESARE IA, Eusébio de. História Eclesiástica. Tradução das Monjas Beneditinas do Mosteiro de Maria Mãe de Cristo. São Paulo: Paulus, 2000.

 

GEORGE, Timothy. Teologia dos reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1994

 

MENDES, Eber da Cunha Mendes. Causas religiosas da reforma protestante. Doxia. Serra, v. 2, n. 2, p. 47-65, abr-jun 2017.

 

SOCIEDADE BÍBLICA CATÓLICA INTERNACIONAL E PAULUS. A Bíblia de Jerusalém. 4. ed. São Paulo: Paulus, 1995.

 

TILLICH, Paul. A coragem de ser. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1991.

Estátua de Martinho Lutero.jpg

#História #31deOutubro
#religião #teologia #Halloween
#MartinhoLutero #Igreja

 

whatsapp-logo-1.png
Ogro Historiador - Catarse.png

Assine a nossa newsletter e receba o nosso conteúdo na sua caixa de e-mail.

Comentários