Sátira trovadoresca e o sexo musicado

Por Hugo David Gonçalves

24 de Nov de 2018

Raramente as pessoas utilizam a palavra “medieval” como adjetivo para qualificar de forma positiva algum pensamento ou atitude. Certa vez conheci um padre, de nome João, que dizia se perceber como “medieval” e o falava com orgulho. Padre João era um grandessíssimo guardião dos costumes, defensor da família e dos valores cristãos (que para ele não eram mais que os Católicos Apostólicos Romanos). Ele ensinava que tínhamos que respeitar a todos os irmãos de outras religiões, procurando salvá-los do pecado da apostasia, uma vez que a única e verdadeira fé era o Catolicismo. Neste ponto realmente ele parecia ter vindo de algum momento entre o governo do Imperador Teodósio (século IV) e o papado de Leão X (século XVI, papa que testemunhou a elaboração das 95 teses de Martinho Lutero), em que o cristianismo era praticamente limitado, em termos de Ocidente, ao Catolicismo Apostólico.

 

Padre João só não era completamente medieval por dois motivos: primeiro porque ele sempre recomendava a leitura do “Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem Maria” de São Luís de Monfort (que morreu em 1719); e porque ele tinha uma visão sobre o que era “ser medieval” bastante tributária do Romantismo do século XIX. Certamente Padre João era muito mais Romântico que propriamente Medieval. Afirmo isso porque os testemunhos que aqueles homens e mulheres nos deixaram podem mostrar uma realidade que vai muito além da exegese bíblica ou da pureza moral e espiritual. Alguns desses testemunhos, produzidos pela “cultura popular”, mostram sensibilidades e sociabilidades muito diversas do discurso eclesiástico. Cabe ao historiador do cotidiano buscar nesses discursos e naqueles testemunhos pistas para a reconstrução da vida ordinária daqueles seres humanos.

 

Um bom exemplo desse material são as cantigas produzidas pelo movimento do “Trovadorismo” na Península Ibérica. Esse movimento foi responsável pela produção de uma série de poemas-canção chamados de Cantigas, emuladas em compilações chamadas Cancioneiros. Todos eles são produções posteriores que procuraram registrar um patrimônio cultural de base eminentemente oral. O mais antigo que se tem notícia é o Cancioneiro d’Ajuda, datado do início do século XIV, mas há outros como o da Biblioteca Nacional e o da Vaticana (ambos do séc. XVI).

 

As Cantigas podem ser divididas em dois grandes gêneros: lírico e satírico. Esse material é vastamente explorado pelos estudiosos da Linguística, sobretudo voltados à Literatura Portuguesa. Em História não há tanta difusão de estudos que se debrucem sobre esse tipo de documento. Ainda assim, o gênero lírico goza de maior prestígio entre os estudiosos. A sátira, por outro lado, é importantíssima para que possamos perceber o que está abaixo da superfície, o que subjaz o discurso oficial, o que é dito sem ter sido mencionado.

 

Essas produções carregam uma carga simbólica muito forte e muitas vezes de difícil rastreamento, tendo em vista a distância que nos separa daquela experiência. Como foram feitas para serem cantadas e encenadas, devemos partir da ideia de que a plateia e os compositores partilhavam um universo simbólico comum que permitia o cumprimento da função daquela sátira: o riso. O ambiente em que floresceram foi o do que chamamos “cultura popular”, em oposição à “cultura erudita”, reservada (pelo menos até o século XIII) ao âmbito eclesiástico. Não pensemos, porém, que essa ideia de “popular” incluía a grande massa da população. Era restrita aos nobres.

 

Satirizavam todo tipo de situação. Faziam pilhéria sobre os mais diversos assuntos e expunham todos esses gracejos em forma de cantigas entoadas durante alguma reunião festiva e acompanhadas, obviamente, de comida, bebida, dança e sexo. Ao contrário do que o Padre João imaginava a Idade Média não foi um período de castidade, fé e devoção em todos os âmbitos da sociedade. Ao contrário, muitos documentos são capazes de testemunhar práticas muito pouco cristãs, mesmo no âmbito do Clero.

 

No que se refere às cantigas satíricas, há muitas delas que evocam a temática sexual, afinal de contas esse assunto realmente é popular. As entrelinhas das cantigas satíricas denunciam práticas muito pouco canônicas. Ora, se o objetivo era causar o riso, é óbvio que as pessoas partilhavam de conhecimento suficiente para compreender do que se tratava aquela invectiva, para sorrir da sátira e para perpetuá-la de forma oral até que fosse compilada no Cancioneiro. Certamente muitas se perderam na tradição oral, mas as que restaram podem nos dar pistas sobre como aqueles homens e mulheres percebiam o ato sexual, sobretudo no que se refere às práticas pouco recomendadas.

 

Por outro lado, as cantigas pura e simplesmente não são suficientes para que esse esforço de reconstrução seja fidedigno, é preciso buscar em outras fontes indícios sobre tais práticas, e elas existem. Para uma primeira conversa sobre o tema, trouxe o exemplo bastante explícito. Trata-se de uma cantiga atribuída a D. Pedro (Afonso), que foi Conde de Barcelos e era filho bastardo do rei português Dom Dinis, que reinou entre 1279 e 1325. A obra tem um caráter político importante no que se refere ao conflito em relação a um senhorio, mas o que chama a atenção é o uso do ato sexual como pretexto para insultar alguém, objetivando o riso e denunciando práticas vigentes. O trovador indica que a cantiga se refere à relação entre uma freira e um tabelião. Ela Moor Martins Camela, ele João Martins Bodalho. Os personagens podem ser fictícios e as intenções para tal cantiga muito mais profundas, mas o fato é que a prática sexual aparece como desabono para ambos. A linguagem e o ritmo que dessa obra são elementos muito importantes para a criação dessa atmosfera satírica. Observemos:

 

Natura das animalhas

que som d’ũa semelhança

é de fazerem criança.

mais dês que som fodimalhas.

Vej’ora estranho talho

qual nunca cuidei que visse:

que emprenhass’e parisse

a camela do bodalho.

 

As que som d’ũa natura

juntam-s’a certas sazões

e fazem sas criações;

mais vejo já criatura

ond’eu nom cuidei veê-la;

e por em me maravilho

de bodalho fazer filho,

per natura, na camela.

 

As que som, per natureza,

corpos d’ũa parecença

juntam-s’e fazem nacença

– esto é sa dereiteza;

mais no coidei em mia vida

que camela se juntasse

com bodalh’[e] emprenhasse

[e] demais ser d’el parida.

 

A cantiga está listada no Cancioneiro da Vaticana pelo número 1040 e foi escrita em galego-português, língua das produções trovadorescas em toda a Península Ibérica. O texto fala sobre uma freira (camela) que praticou sexo com um tabelião (leitão) e tiveram um filho. A brincadeira vem de uma imagem do mundo rural: como um camelo fêmea poderia fazer sexo com um porco e ter um filho desse relacionamento? É uma imagem para o estranhamento causado pela denúncia da escandalosa relação mantida por esse tabelião de Braga com alguém com quem não deveria se meter (nem literal, nem figurativamente).

 

O sexo aparece ligado à natureza dos animais, desde que seus corpos combinem, como afirma a cantiga. Essa própria ideia nos remete à metáfora muito comumente utilizada para se referir à sociedade medieval, que é a metáfora do corpo. A incompatibilidade dos corpos da freira e do tabelião não é física, mas também social. O trovador também fala que os animais “fazem criança” desde que são “fodimalhas”, o que em uma linguagem bastante direta, assim como a utilizada pelo trovador, quer dizer “capaz de foder”. Lembramos que o objetivo dessa cantiga não é louvar as qualidades ou conquistar o amor de alguém, mas exatamente ao contrário. O tema sexual estava presente nas cantigas medievais e eram encenadas nas festas para todos ouvirem.

 

Certamente Padre João não era um desses homens medievais e talvez nem os conhecesse desse modo. Seu moralismo e conservadorismo certamente repudia a banalização do sexo e o caráter explícito que aparece na Cantiga em questão. Padre João é um homem de nosso tempo preocupado com questões de nosso tempo. Os Padres medievais, guardiães da moralidade e dos bons costumes também estavam preocupados com questões de seu tempo. O fato de o sexo ter aparecido, neste texto, como tema de uma produção musical medieval em contraponto com o moralismo de algumas pessoas daquela sociedade confere ao debate uma atualidade muito importante. Quantas produções musicais atuais têm tal temática? Quantos Padres João conhecemos? A História não está tão longe de nós. Nem o Padre João.

 

 

Referências e sugestões de leitura

 

CANTIGAS DE ESCÁRNIO E MALDIZER: dos Trovadores e Jograis Galego-Portugueses. GVL. Edição crítica Graça Videira Lopes. Lisboa: Editorial Estampa, 2002.

 

CANTIGAS D’ESCARNHO E DE MAL DIZER DOS CANCIONEIROS MEDIEVAIS GALEGO-PORTUGUESES. MRL. Edição crítica Manuel Rodrigues Lapa. Vigo: Galáxia, 1965.

 

D’HEUR, Jean-Marie. L’Art de Trouver du Chansonnier Colocci-Bracuti. Arquivos do Centro Cultural Português. Vol. IX. Homenagem a Marcel Bataillon. Paris: Fundação Caloustre Goulbenkian, 1975.

 

VASCONCELOS. Carolina Michaëlis. Glosas marginais ao Cancioneiro medieval português. Edição de Yara Freteschi Vieira et al. Coimbra: Universidade de Coimbra: Universidade de Santiago de Compostela: Editora da Universidade de Campinas, 2004.

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