O PT merece perdão?

Por João O. Ramos Neto

26 de Ago de 2020

Ascânio Seleme, colunista do jornal O Globo, causou polêmica ao assinar o texto “É hora de perdoar o PT” na edição de 11 de julho de 2020. Ele afirmou que o PT precisa ser reintegrado ao debate político nacional, pois o partido é maior do que a roubalheira e amadureceu. Se o objetivo da coluna era diminuir a polarização política atual no País, seu autor falhou no intento. O efeito foi contrário.

O período em que o Brasil foi governado pelo PT [2003-2016] é alvo de diferentes opiniões. Enquanto uma considerável parcela do eleitorado brasileiro realça os aspectos negativos da corrupção, em detrimento dos aspectos positivos dos ganhos sociais, outra parcela faz exatamente o contrário: realça os ganhos sociais como aspecto positivo e minimiza os efeitos negativos da corrupção. Se colocar o problema da corrupção exclusivamente na conta do PT é errado, já que também existem escândalos de corrupção em outros partidos que não são alvos da mesma indignação, também é errado ignorar os escândalos de corrupção em nome de outros acertos, como na máxima maquiavélica de que “os fins justificam os meios”.

Essa polarização decorre, em parte, de uma compreensão equivocada do jogo político. Os partidos políticos existem – ou, deveriam existir - para agrupar pessoas por ideologias parecidas, e não para disputar narrativas morais nas quais cada um requer pra si uma suposta superioridade ética enquanto acusa os inimigos de corruptos. Em todos os grupos humanos – inclusive nos partidos políticos - sempre haverá éticos e corruptos. Diante disso, afirmar que é preciso perdoar o PT é declarar-se analfabeto político, porque é pressupor a possibilidade de um partido governar um país corrupto de forma incorruptível.

Diante disso, questiono: em que momento o PT não esteve no debate nacional? Entre treze candidatos, foi Fernando Haddad quem disputou o segundo turno com Bolsonaro nas eleições de 2018, inclusive com mais votos que o PSDB. Então, qual o sentido de dizer isso em uma coluna jornalística? Será que os seus leitores seriam incapazes de concluírem, por si mesmos, que um partido com quase dois milhões de filiados é maior que as suas duas dezenas de líderes condenados pela justiça?

Não estou fazendo uma defesa do PT. Não sou militante nem filiado a nenhum partido. Estou fazendo, antes, uma defesa do debate democrático. É justamente esse tipo de discussão reducionista entre mocinhos e bandidos que precisa ser superada para que o Brasil possa crescer como nação. Então, o PT merece perdão? Isso não é uma pergunta plausível ou saudável no campo político. Se for pra perdoar algo ou alguém, então talvez seja hora de perdoar os formadores de opinião que conduziram o debate político para essa prejudicial polarização na qual estamos inseridos e não conseguimos superar.

#Política

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