Selfie memories

Por Hugo David Gonçalves

14 de Jan de 2019

O trabalho historiográfico depende de muitos fatores, mas o principal deles talvez seja justamente a necessidade de utilização de fontes que possam sustentar suas reflexões. Essas fontes documentais, no atual estágio da pesquisa histórica pode ser praticamente qualquer coisa. Desde os clássicos anais, crônicas, relatos ou obras de arte até os costumes, o patrimônio imaterial ou até mesmo o meio ambiente. Qualquer estudo precisa desses vestígios da ação humana para que seja devidamente desenvolvido. Grande parte desses documentos se encontram em locais específicos, guardados sob os cuidados de profissionais capacitados.

 

Esses locais específicos, chamados de arquivos, contam (ou pelo menos deveriam contar) com o trabalho dos arquivistas: profissionais capacitados para lidar com todo o ciclo de vida dos documentos. Sim, os documentos têm ciclos de vida que precisam ser observados. As pessoas produzem documentos em todos as atividades que desempenham. Nos dias de hoje, tudo é documentado em tempo real por smartphones cada vez mais modernos. O que será feito de tanta informação? Tantas selfies e stories de pratos de comida, paisagens paradisíacas ou mesmo aqueles nudes impublicáveis que são enviados para alguém ou mesmo guardados para si em alguma pasta secreta.

 

Desde o advento da rede mundial de computadores, o mundo (todo ele) tem caminhado na direção de uma produção cada vez mais avolumada de documentos. Esses documentos tem uma vida muito curta (os stories das redes sociais, por exemplo, só duram 24h), mas as atividades que os geraram, muitas vezes não. Uma foto publicada de um pastel e uma garapa numa feira livre qualquer, publicada nos stories de alguém pode durar apenas 24h nas redes sociais, mas aquela interação social pode ter significados muito mais profundos na vida da pessoa que fez tal publicação.

 

Caso ela mesma queira ver essa publicação em algum outro momento terá que fazer um procedimento específico para salvá-la, e assim poder acessar novamente. A pergunta que se faz: quererá ela, futuramente, rever tal registro? Os momentos felizes (ou constrangedores) de revirar álbuns antigos terão se extinguido de vez? Pessoas mais apegadas às tradições dizem frases como: foto digital não é a mesma coisa; depois temos que revelar (esse verbo gera uma profunda inquietação em mim) essas fotos; nunca voltaremos a ver esse registro; ninguém mais vai lembrar das coisas daqui a 10 anos.

 

Uma busca rápida nas redes sociais mostra que várias celebridades que já morreram têm perfis ativos (obviamente mantidos por fãs), com publicações, curtidas e compartilhamentos frequentes. As formas de recorrer aos artefatos de recordações deixaram de ser o ritual de procurar, limpar, abrir e folhear um velho álbum de fotos e passaram a ser uma ação cotidiana e rotineira. Uma inquietação: quem cuidará dessas memórias? Quem fará catálogos desses arquivos? Como serão feitas as pesquisas que envolvem a memória e sua construção-preservação-utilização?

As memórias fluem, o tempo se esvai com elas, e nossa vida segue o fluxo rumo à inexorável condição mortal. Não tendo fãs para manter contas ativas nas redes sociais (muitas vezes penso que viver nas redes é equivalente à existência viva, pelo menos para quem ficou), cabe à grande maioria da população nomear um “contato herdeiro”, que não poderá acessar sua conta, mas poderá aceitar novas solicitações de amizade, escrever uma publicação fixa, alterar foto do perfil, transformar sua conta em memorial ou excluir sua conta. Chama a atenção que exista uma cláusula que permita que uma conta de alguém que morreu tenha solicitações de amizade aceitas. Se essa cláusula existe, significa que as pessoas solicitam amizades para perfis de falecidos.

 

Por fim, explico o porquê de a utilização do verbo “revelar”, aplicado às fotografias digitais, me causar tanta inquietação. Costumo dizer que minha geração é a última que vivenciou um mundo analógico. Refiro-me ao lugar onde nasci e me criei e reconheço os diferentes ritmos que esse fenômeno se manifesta. Esse mundo analógico conviveu muito bem com filmes fotográficos de 12, 24 e 36 “poses”. Queimar o filme não era só uma gíria, literalmente poderia acontecer. Depois de findo esse rolo de filme, era preciso rebobinar, abrir a câmera, retirar o rolo e enviar para um laboratório de revelação fotográfica. Depois de dois dias as fotografias eram entregues e podia-se conferir o resultado das fotografias. Elas chegavam, necessariamente, depois do fim do evento. Muitas vezes passavam-se meses. Essas fotos cristalizavam uma memória já finda, um fenômeno já acabado, um acontecimento passado. Hoje não há nada para se revelar.

 

Ninguém pensa em quantas “poses” precisarão ser utilizadas para que uma selfie agrade a todos os que nela aparecem (frequentemente são mais que 36, mas acho que ninguém faz essa conta). As fotos não cristalizam uma memória finda. Ao contrário. Elas constroem o momento, fazem parte do evento, compõem o acontecimento. Minha avó, de 80 anos sabe o que é uma selfie e a palavra “postar” já faz parte de seu vocabulário. Não é algo desta geração digital. É uma profunda alteração nos costumes e nas sociabilidades. Como os historiadores do futuro (espero que eu seja um deles) irão perceber e analisar essas mutações é algo que não podemos conceber, mas certamente serão muito interessantes.

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