Será mesmo que devo chamar meu adversário político de fascista?

Por Wendryll Tavares

02 de Nov de 2018

O termo fascismo esteve muito presente nas discussões políticas durante as eleições brasileiras. Isso nos faz perceber que paralelamente ao anticomunismo que acompanha o Brasil desde pelo menos a primeira metade do século XX (visível nas consequências do Plano Cohen) e que está ganhando força novamente nos últimos anos, existe um antifascismo por aqui que remete à década de 1930 (exemplificado na oposição aos integralistas), mas que ganhou muita força no campo do discurso ultimamente. Depois do comunista “comedor de criancinhas”, popularizou-se a verbalização do fascista como ofensa[1]. No entanto, é preciso lembrar que o fascismo é um sistema político e econômico (como nos lembra George Orwell) e não um palavrão.

 

A necessidade de buscar certo entendimento do conceito nos obriga a fugir da política superficial e da necessidade de criar rótulos para os adversários. Essa fuga nos leva à História, campo do conhecimento errático e frágil, contudo, muito mais seguro do que achismos e o apego a certas paixões políticas. Antes disso, é importante lembrar que as interpretações históricas de um fenômeno humano não são eternas e inflexíveis. Dito isso, o fascismo como fenômeno histórico pode ser entendido como um produto ideológico típico da Europa entre os anos 1922 e 1945, quando surgiram regimes totalitários que se opunham tanto ao capitalismo liberal quanto ao comunismo soviético[2]. A partir dessa delimitação temporal e geográfica, é possível “isolar” o fascismo e enumerar algumas de suas características centrais: controle político a partir de partido único de massas, culto ao líder (duce ou führer), fomento ao ideal de colaboração de classes a partir de um corporativismo social, oposição ao comunismo e socialismo, negação dos valores liberais, mobilização de um grande aparelho de propaganda e censura, eliminação dos opositores (material e imaterial), crescente dirigismo estatal em coordenação com uma economia de tipo privado e integração das diversas estruturas de controle do partido/Estado[3]. O fascismo se diferencia de outros tipos de autoritarismos porque enfatiza a mobilização de massas de baixo para cima, possui grande preocupação contrarrevolucionária, centra-se na defesa de valores tradicionais em oposição à Modernidade e fomenta a ideia de criação de uma memória nacional enviesada favorável ao regime[4]. Como exemplos históricos da possibilidade de aplicação do conceito, podemos identificar a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini (como defende, por exemplo, Juan Linz).

 

Nascido no contexto de crise que se seguiu à Primeira Guerra, o fascismo teve seu primeiro momento de protagonismo na Itália com a ascensão do Partito Nazionale Fascista e de Benito Mussolini, o duce, como Primeiro-Ministro. Tal figura política defendeu durante certo período muitas pautas anticapitalistas e anticatólicas, mas quando chegou ao governo alterou sensivelmente sua agenda política. Entre 1922 (ano da Marcha sobre Roma e início de seu governo) e 1925, houve um processo de transição de um modelo liberal para uma ditadura, esta possibilitada por certo sucesso nas áreas de economia e política externa. A Lei Acerbo de 1924 ajudou a formatar uma maioria fascista nas eleições do mesmo ano e no ano de 1925 teve início uma onda de repressão típica de regimes de exceção, e em 1926, a partir da promulgação das leis fascistíssimas, a ditadura estava escancarada. A partir daí ocorreu um processo de consolidação do novo regime, através da construção de um consenso que envolveu diversos setores da sociedade, passou pela intervenção imperialista, a participação na Guerra Civil Espanhola e atingiu seu ápice na entrada na Segunda Guerra Mundial, símbolo também do início da derrocada do duce e do regime.

 

A experiência alemã diverge um pouco na cronologia, mas segue as linhas gerais traçadas pelo fascismo italiano. Hitler ingressou no Partido dos Trabalhadores Alemães em 1919 e rapidamente cresceu na hierarquia partidária, principalmente por conta de sua capacidade oratória (evidenciada nos discursos inflamados realizados em “cervejarias” de Munique). Em pouco tempo, assumiu a liderança da agremiação e mudou o nome dela para NSDAP (Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães). Hitler, um orador de singular carisma e crescente prestígio, articulou um golpe na cidade de Munique em 1923, mas acabou preso (e na cadeia deu início ao processo de escrita de sua obra Mein Kampf). Entre 1924 e 1929, a economia alemã obteve uma relativa recuperação econômica e política que afastou o Partido Nazista de qualquer protagonismo, mas a quebra da Bolsa de Nova Iorque fez desmoronar toda a estrutura da República de Weimar. Tal conjuntura facilitou a uma ascensão dos nazistas e em 1930 o número de cadeiras nazistas no Parlamento pulou de 12 para 107. A propaganda para tal ascensão compreendia pautas nacionalistas, combate ao desemprego, promessas de isenções para industriais e financiamento aos agricultores, além do sempre presente moralismo, em pautas como: a defesa da propriedade privada e a proteção da família e da religião. A crise econômica não cessou e as eleições de 1932 mostraram mais um avanço nazista, agora para mais de 200 cadeiras, diminuídas após novo processo eleitoral. Mesmo assim, no início de 1933, após pressões principalmente de um grupo de industriais, o Presidente Hinderburg demitiu von Schleicher e nomeou Hitler como chanceler. Em fevereiro do mesmo ano, o Reichstag foi incendiado e após a assinatura de um decreto de emergência que suspendia todas as garantias e liberdade, Hitler tomou o controle dos meios de comunicação e da polícia. O que se seguiu foi uma grande repressão a sindicatos e partidos adversários, a criação da Polícia Secreta do Estado (Gestapo) e da Câmara Cultural do Reich, a “regularização” das relações com a Igreja e a destruição das SA com a ajuda das SS. Com a morte de Hindenburg em 1934, Hitler assumiu também a presidência e convocou um plebiscito que lhe permitiu assumir a posição de Führer. A partir daí, toda a máquina de propaganda foi mobilizada para atingir as grandes massas, tocando em questões desde as mais superficiais até as mais profundas e definindo bodes expiatórios para atacar (os judeus são o exemplo mais famoso). Além dessa legitimação interna, o regime também passou a fomentar uma política externa muito agressiva, visível na participação alemã na Guerra Civil Espanhola, nas posições imperialistas e também nas ações contra vizinhos que ocasionariam o início da Segunda Guerra Mundial.

 

A partir desse pequeno sumário de acontecimentos políticos é possível perceber certos paralelos entre a Alemanha hitlerista e a Itália mussolinista. Em primeiro lugar porque ambos os líderes nacionalistas ascenderam ao poder com uma pauta anticomunista e antiliberal, com a ajuda de milícias, a ausência de oposição religiosa (se não flagrante pelo menos tácita) e com uma propaganda que visava atingir as massas. Além disso, quando chegaram ao poder se valeram mais ainda da propaganda, tiveram de se aproximar do grande capital, empreenderam uma política de partido único, eliminaram (e “criaram”) opositores, praticaram políticas externas agressivas e se envolveram em conflitos armados que acabaram gerando a derrocada de ambos os regimes. Ou seja, fascismo é um conceito que explica muito bem as realidades alemã e italiana entre guerras e que nos ajuda a entender a escalada de violência que levou à Segunda Guerra Mundial e a algumas das maiores atrocidades do século XX.

 

É aqui que chegamos ao cerne de nosso argumento. Diante de toda essa realidade apresentada, utilizar o conceito de fascismo de maneira descuidada é extremamente perigoso porque pode significar a banalização do termo e consequentemente o esvaziamento da barbárie ocasionada por ele. Além disso, chamar o adversário político de fascista pode ser não somente um exagero, como também um ato de superestimação. É atribuir um grau de organização e sofisticação em direção ao horror que ele pode não conhecer e sequer imaginar. Isso não quer dizer, por outro lado, que certas tendências políticas possam ser subestimadas. Entre elas, podemos citar o “neofascismo”, objeto de polêmica no Brasil por conta da turnê de Roger Waters na reta final da última campanha eleitoral presidencial.

 

* Enquanto finalizávamos este texto, a seguinte notícia nos chamou a atenção:

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/10/unb-reforca-seguranca-e-pede-apoio-da-pf-e-agu-apos-anuncio-de-protestos.shtml?loggedpaywall

 

Leituras complementares:

O que é fascismo (George Orwell)?

https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-que-e-fascismo/

Dicionário de conceitos históricos (verbete Fascismo)

https://www.amazon.com.br/Dicion%C3%A1rio-conceitos-hist%C3%B3ricos-Kalina-Vanderlei-ebook/dp/B00AJRQ0UI

Dicionário de Política (verbete Fascismo)

https://www.amazon.com.br/Dicion%C3%A1rio-Pol%C3%ADtica-2-Volumes-Bolso/dp/8523003088?tag=goog0ef-20&smid=A1ZZFT5FULY4LN&ascsubtag=go_726685122_49363357406_242624078159_aud-519888259198:pla-482676248111_c_

A Anatomia do Fascismo:

https://www.submarino.com.br/produto/110370985/livro-anatomia-do-fascismo-a?WT.srch=1&epar=bp_pl_00_go_g35177&gclid=Cj0KCQjwguDeBRDCARIsAGxuU8Z0FKU2jaUmLzp0AZHNbQ23BiUjW5U38SWoKPy6Wnhg4P1LIioxDF8aAnJ8EALw_wcB&opn=XMLGOOGLE&sellerId=20740786000190

A Chegada do Terceiro Reich:

https://www.amazon.com.br/Chegada-do-Terceiro-Reich/dp/8542208730/ref=pd_sbs_14_1?_encoding=UTF8&pd_rd_i=8542208730&pd_rd_r=e81e4eaa-dc73-11e8-a6ec-6327299a9613&pd_rd_w=rGw0j&pd_rd_wg=DGzuS&pf_rd_i=desktop-dp-sims&pf_rd_m=A1ZZFT5FULY4LN&pf_rd_p=70350d8c-4f01-48e0-ada5-5ec4f2a6da98&pf_rd_r=JFRP46AS7Q64QSSX634Z&pf_rd_s=desktop-dp-sims&pf_rd_t=40701&psc=1&refRID=JFRP46AS7Q64QSSX634Z

O Terceiro Reich no Poder:

https://www.amazon.com.br/Terceiro-Reich-Poder-Richard-Evans/dp/8542208242?tag=goog0ef-20&smid=A1ZZFT5FULY4LN&ascsubtag=go_726685122_51601401518_242574450465_aud-519888259198:pla-434266637885_c_

Fascismo Italiano

https://www.estantevirtual.com.br/livros/angelo-trento/fascismo-italiano/963549329

Nazismo: o triunfo da vontade

https://www.estantevirtual.com.br/livros/alcir-lenharo/nazismo-o-triunfo-da-vontade/3209417149

Origens do Totalitarismo

https://www.amazon.com.br/Origens-do-totalitarismo-Hannah-Arendt/dp/8535922040?tag=goog0ef-20&smid=A1ZZFT5FULY4LN&ascsubtag=go_726685122_54292137521_242594579893_aud-519888259198:pla-462500535317_c_

 

1 Não estamos comparando as duas ideologias, somente a vulgarização de ideologias complexas para fins políticos práticos.

 

2 SILVA, K. V.; SILVA, M. H. Fascismo. São Paulo: Contexto, 2009. P. 141.

 

3 SACCOMANI, E. Fascismo. In: BOBBIO, N; MATTEUCCI, N; PASQUINO, G. Dicionário de Política. Coord. Trad. João Ferreira. Brasília: Editora UNB, 1998. P. 467.

 

4 SACCOMANI, E. Fascismo. In: BOBBIO, N; MATTEUCCI, N; PASQUINO, G. Dicionário de Política. Coord. Trad. João Ferreira. Brasília: Editora UNB, 1998. P. 466.

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