Sobriedade

Por Johnny Taliateli

22 de Mar de 2019

Escrever no Ogro é assumir alguns riscos, nós entendemos isso. Como historiadores de ofício que somos seria possível para alguns dizer que o modelo de abordagem que fazemos na seção “Nem tão distante” destoa do que seja efetivamente o trabalho do historiador. Isso, porque mesmo para representantes dos chamados historiadores do tempo presente é preciso um mínimo de distanciamento temporal do objeto analisado para que o sujeito que produz o conhecimento histórico tenha condições de compreender algum fenômeno ou processo, evitando ao máximo, os chamados juízos de valores. Como sujeitos que vivem o turbilhão, que são personagens atuantes da conjuntura que passamos, seria difícil manter um distanciamento saudável para a compreensão do momento histórico que vivemos. A seção “Cheiro de carne” está nesse sentido, muito mais associada ao que pode ser entendido como o ofício, por mais que aqui, assumimos certos particularismos, como o empenho em sintetizar determinadas discussões, claro que, sem perder o desejo de alcançar um mínimo de um certo padrão qualitativo.

 

Apesar da seção “Nem tão distante” poder ser entendida por alguns como algo em desacordo com as características do nosso trabalho, mantemos o nosso interesse em discutir questões da atualidade como sujeitos que pensam e acreditam nesse esforço. O momento pede isso. A produção de outros sentidos que decorre desse processo é algo natural por ter sido feito por um agente que faz parte da conjuntura, trata-se de um efeito próprio do imediatismo. Se as pessoas se atentarem para isso, vão compreender melhor o próprio trabalho jornalístico (o que não é o nosso caso e nem nossa formação!). Obviamente aquele que escreve uma matéria está colocando muito dele no seu texto e, por isso mesmo, está produzindo outros sentidos em relação a dado acontecimento que não seja somente o fenômeno em si. Isso não tem nada a ver com manipulação – embora exista – nem com algum tipo de conspiração obscura para impor em veículos de imprensa, por exemplo, os seus planos de “dominação”. Repito, a atribuição de outros sentidos a um dado acontecimento contemporâneo ao analisá-lo é natural e humano, o cientista social e não só ele, evidentemente coloca algo de si e de sua interpretação no seu texto por estar inserido na tempestade.

 

Mas isso é totalmente diferente do fenômeno das "Fake news". O que seria ideal para frear a avalanche de notícias falsas ou distorcidas? Parece que ninguém alcançou uma resposta efetiva ainda. O melhor seria que o filtro partisse daqueles que recebem a informação. Com tantas coisas disponíveis na internet, com tantas versões, o que resta ao indivíduo que busca por algum conhecimento? É preciso fazer perguntas em relação a esses conteúdos. O filtro não é julgar por julgar, não é "achismo".

 

“Fake News” e “Junk News” são compartilhadas massivamente sem nenhum critério. Está claro também que por aí estão propagando um certo anticientificismo e um antiacademicismo, as universidades públicas constantemente são atacadas. O atabalhoado Escola sem partido – que no fim se mostrou um “escola só com meu partido” – e alguns ideólogos contribuíram para isso. Falta a filtragem das informações, mas se boa parte da sociedade não anda manifestando nenhuma confiança naqueles que produzem os saberes, como vão lidar com tanta coisa distorcida? Sem fazer perguntas em relação àquilo que recebemos, sem um mínimo de sobriedade, nos tornamos alvos fáceis nessa sociedade do espetáculo e das pirotecnias. É claro que ao atacarem os inimigos errados por conta de inúmeras distorções, o próprio desenvolvimento do país é prejudicado. A paralisação no MEC por conta dessas brigas de poderes é sintomática desses absurdos, não é preciso enumerar a série de erros cometidos desde o início do ano. Agora, diferentes grupos que integram o governo desejam nomear o número dois da pasta, olavistas, evangélicos e militares.

 

É interessante, por exemplo, sair nesse momento o World Happiness Report, estudo que revela que os brasileiros alcançaram o ápice de sua infelicidade em 2018, gerada pela falta de confiança em seus líderes políticos e pela crise financeira. Outro dado interessante do trabalho é que o consumo de informações pelas redes sociais está, ao que tudo indica, ligado aos índices de infelicidade[1]. O problema é que normalmente essa descrença geral provoca o apego de muitos a figuras que são vistas como “salvadoras”, mesmo que a experiência brasileira – e não só ela – tenha demonstrado que isso é uma faca de dois gumes. Continua no ar um mal-estar geral, o ambiente que vigora nas redes ainda não ficou diferente do clima de campanha do ano passado, principalmente, porque isso é alimentado por aqueles que já se encontram no poder. O uso e abuso dessa massa que consome as mídias sociais virou uma ferramenta efetiva de controle de parte da sociedade e de coerção da outra. Da noite para o dia, o emprego de notícias distorcidas é utilizado para alvejar inimigos políticos, para censurar ou impor uma linha de pensamento única.

 

Os efeitos desse mal-estar são notoriamente negativos e é pueril acreditar que isso não interfira no clima de violência em uma sociedade que promove constantemente a violência política.

 

Mais do que nunca é hora de sobriedade!

 

[1] Disponível aqui.

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