Você está na escola pra obedecer!

Por Hugo David Gonçalves

10 de Dez de 2018

Quem passou por uma faculdade de licenciatura, certamente participou de debates sobre o poder simbólico exercido pelo professor em relação aos alunos, caracterizado, dentre outros aspectos pela arquitetura escolar. O que Jean-Claude Forquin chama de função de transmissão cultural da escola passa pela definição dos conteúdos ensinados e de sua relevância. Uma vez que a escola (sobretudo a partir dos anos 1980) passa a ser um lugar de aprendizagem de conteúdos úteis, a cultura escolar passa a ser permeada por essa característica[1]. Quem define, entretanto, essa utilidade?

 

O conhecimento escolar não é construído somente na escola, mas carrega em si uma profunda relação com a sociedade de forma geral. A seleção dos conteúdos que devem ser ensinados, a composição dos currículos, a seleção das metodologias pelos professores, a escolha do local onde a escola será construída, a forma das salas, a disposição da quadra de esportes, da sala dos professores, da diretoria, coordenação, secretaria, banheiros e tudo o que envolve a escola tem um viés político (em sentido amplo, relacionado à comunidade, à polis). Toda educação é ideológica. Toda.

 

Falar em ideologia nos dias atuais é um problema, já que essa palavra passou a compor o repertório de todos que discutem qualquer coisa relacionada à vida política. Isso precisa ser enfrentado. A ideologia, no que Norberto Bobbio chama de significado fraco[2], resume-se às noções que temos sobre questões de ordem pública e que orientam a ação coletiva dos indivíduos. Dessa forma, toda escola e toda educação são ideológicas. O corpo docente (todo ele), tendo garantido seu privilegiado lugar de fala, constrói uma reflexão compartilhada pelos alunos por meio do processo de ensino-aprendizagem.

 

Esse processo é uma via de mão dupla e por isso a palavra de ordem é “ensino-aprendizagem”. Não se ensina sem se aprender. Não se aprende sem ensinar. O ponto central é que essa reflexão sobre ensino e aprendizagem é muito recente, como nos ensinou Forquin. Na imensa maioria das escolas (para não dizer em todas elas) o professor continua a manter sua posição de poder e de detentor de um conhecimento que precisa ser acessado pelo ou transmitido aos alunos.

 

Li uma frase semana passada que me levou a pensar neste texto: nossa escola ensina a obedecer, não a pensar. Essa constatação não tem nada de original. A imagem que trazemos para este texto foi retirada do filme Pink Floyd The Wall, dirigido por Alan Parker, lançado em 1982. O filme mostra a vida de um roqueiro e o retrata em sua escola. A música Another brick in the wall, de composição do vocalista e guitarrista da banda, Roger Waters, foi gravada em 1979 em três partes[3] e faz parte do álbum The Wall. Nela, crianças repetem frases como We don’t need no education e Hey, teacher, leave them kids alone, cuja tradução (livre) significa, respectivamente: nós não precisamos de educação, e hey, professor, deixe essas crianças em paz.

 

Os anos 1960 e 1970 assistiram a uma série de movimentos de contestação política e cultural chamado contracultura. As rebeliões estudantis de maio de 1968 em Nanterre, na França são um exemplo. O festival de Woodstock em 1969 nos Estados Unidos também. Além dessas manifestações de uma juventude rebelde, houve efetivamente um movimento de renovação intelectual voltado, sobretudo para o pensamento crítico.

 

Essa renovação intelectual, na História, corresponde à transição da segunda para a terceira geração dos Annales. Jacques Le Goff, Georges Duby e Pierre Nora são representantes dessa terceira geração. Le Goff, inclusive foi aluno de Marc Bloch, o historiador que falou que somos como Ogros. No campo da pedagogia, a publicação do livro Pedagogia do oprimido[4] de Paulo Freire foi um marco mundial. Os desdobramentos do pensamento pedagógico crítico trouxeram reflexões sobre o papel dos alunos e dos professores no processo de ensino-aprendizagem.

 

Essa revisão de papeis, no limite, faz com que os professores repensem sua posição hierárquica perante seus alunos. É preciso deixar claro que se trata de uma questão pedagógica, não disciplinar. Nesse sentido, o professor deve se colocar de forma humilde em relação aos estudantes, uma vez que não é o detentor de todo o conhecimento. Isso não quer dizer, absolutamente, que os estudantes vão fazer a revolução, depor a autoridade do professor e conduzir a aula a seu bel prazer. Trata-se de uma atitude intelectual de se mostrar aberto e valorizar as experiências dos estudantes. Eles não são folha em branco.

 

Dizer que nossa escola ensina a obedecer, não a pensar, quer dizer que, em linhas gerais, existe a percepção de que a cultura escolar tende à repetição de conhecimentos e não à inovação. Os estudos que tenho acompanhado e a nova geração de professores que conheço (e que ajudo a formar enquanto professor) questionam esse posicionamento hierárquico (reforço que se trata de uma questão intelectual) em favor da construção conjunta de um conhecimento sobre a coletividade. Há esperança. Não está morto quem peleia, já dizia o ditado.

 

Essa renovação e esse caminhar em direção à superação dessa hierarquia não significa, absolutamente, que o professor deva ser permissivo em relação à disciplina. É fato que a escola deve promover uma dominação dos instintos e dos impulsos, sobretudo relacionado aos corpos. Foucault nos fala sobre isso[5]. Essa dominação é necessária e a civilização ainda não sabe lidar com sua falta. Essa ideia de civilização é uma referência a Norbert Elias[6]. Para concluir, relato um diálogo que presenciei e que ilustra essa dependência que temos da obediência e como a escola colabora para a construção de cidadãos dóceis e acríticos.

 

Era uma conversa a três: pai, mãe e uma garota de mais ou menos 8 anos. Estavam em um ambiente tipicamente frequentado pela classe média e eles estavam bastante ambientados. A filha mostra aos pais uma folha com desenhos para serem pintados. A mãe pergunta: como conseguiu isso? A filha responde que a professora lhe dera. Desconfiada a mãe logo pergunta: você não roubou isso não, né (sic)? A criança respondeu com naturalidade, como se essa pergunta fosse corriqueira: não, a professora me deu. Eu vi o desenho no armário da professora e pedi, daí ela me deu. O pai sacudiu a cabeça negativamente e a mãe, perplexa, em um tom que mesclava desaprovação, revolta, vergonha e raiva: filha, você não está na escola pra ficar pedindo, você está na escola pra obedecer (sic.). Arfei. Quase gritei: Hey, mommy, leave them kids alone!

 

[1] FORQUIN, Jean-Claude. École et culture. In: http://epsetsociete.fr/IMG/pdf/forquin_1_.pdf

[2] BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política. Brasília: Editora da UNB, 1998.

[3] Trecho do filme The Wall - https://www.youtube.com/watch?v=YR5ApYxkU-U

[4] FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.

[5] FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 2009.

[6] ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.

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